Luiz Caversan
Abuso de informação
Meu amigo Olympio, que em boa hora abandonou o jornalismo para se dedicar a uma bem sucedida carreira voltada para dois meios, o ambiente e o acadêmico, foi tirar um calo.
Sim, ex-jornalista e professor de pós-graduação, por incrível que pareça, também tem calo.
Mal sabia ele que teria sido mais fácil se inscrever para um novo vestibular, iniciar outra tese, classificar um ecossistema do que arrancar a incômoda protuberância de seu artelho.
Muito simpática, a recepcionista da loja de pedólatras, ops!, pediatras, não!, sim, claro, de podólogos disse logo que era necessário "fazer o cadastro". Ok, disse meu paciente amigo, nada contra.
Até que a mocinha pediu CPF, RG, endereço completo com CEP, telefone de casa, do serviço e o celular, mais a filiação.
Em tempo: não precisou a filiação partidária, só pai e mãe...
Fazer bainha da calça numa loja de shopping, comprar um mouse de computador pagando em dinheiro, mandar dar banho no cachorro no pet-shop, encher o tanque de gasolina... Pombas, como diz o Olympio, para tudo querem saber o seu CPF, RG etc!
Meu instruído amigo, como fez pós-graduação em Londres, manteve a fleuma, mas tascou: "Se existisse a expressão em Inglês, ficaria muito chique dizer que se trata de 'information harassment'..."
Ou seja, algo como abuso de informação.
A cada dia que passa somos submetidos, mais e mais, ao abuso daqueles que nos exigem informação a nosso respeito.
Quem nunca teve que fornecer o CPF e o RG por nada, que jamais recebeu em casa correspondência de um banco, de uma loja, uma proposta "imperdível" de alguém com quem em tempo algum manteve o menor contato?
Como "eles" sabem que você é você e que mora ali, naquela cidade, naquele bairro, naquela rua, naquela casa ou apartamento?
O que mais eles sabem sobre você?
Para quem você está sendo entregue neste momento?
O que vão acabar fazendo com você?
Será paranóia minha e do meu fraterno amigo?
Só um pouco, creio.
Afinal, clonamo-nos, já produzimos robôs que se reproduzem sozinhos, que seguem as pessoas na rua; 1984 de Orwell já passou, transitamos rapidamente pelo admirável mundo novo de Huxley e lá vamos nós, nos meandros da Matrix, em direção ao exterminador do futuro.
Que aparentemente está muito mais presente do que se imagina.
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Sinto muito contrariar a quase centena de leitores que sugeriu que eu adotasse um vira-latas, quando disse em coluna recente que queria um cachorro.
Está aqui agora lambendo meu pé uma jovenzinha simpática, apenas três meses de idade, que atende por Budha.
Trata-se de uma boxer.
Mas como não gosto de nada muito certinho, ela tem pelo branco e a pele cor-de-rosa toda pintada, o que é considerado "defeito" da raça pelos entendidos.
Para completar, exibe uma bela mancha marrom do lado direito da cara, cobrindo inclusive o olho.
Parece uma pirata e é uma excelente companhia...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

