Pensata

Luiz Caversan

28/05/2005

Mulher, amor e desamparo

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Para quem não sabe, Minhocão é o nome do monstrengo arquitetônico que rasga e fere a paisagem de um trecho central de São Paulo --viaduto enorme, feio, inadequado, ineficiente.

Para quem não sabe, o Minhocão dá abrigo a dezenas daqueles sem-teto que os sucessivos administradores desta cidade prometeram proteger.

Com o frio tradicional desta época, o abrigo é um paradoxo: cobre da eventual chuva, sim, mas canaliza o vento como que aprisionando aqueles desvalidos em sua sina perversa.

E foi ali que eu a vi.

Aliás, já tinha visto a mulher meio gordinha, muito suja e desdentada, com suas tralhas, farrapos e seu cachorro.

Como bem notou uma amiga que estava, abraçava-se ao cachorro carinhosamente, como se o animalzinho fosse seu último recurso diante de tanto desamparo.

Hoje, observei-a novamente.

Seus cacarecos estavam todos ajeitadinhos junto a uma coluna do viaduto. A "cama" feita e um caixote servindo de mesa, coberto com um trapo que fazia as vezes de uma toalhinha, suja, mas surpreendentemente arrumadinha.

E mais uma vez estava ali o vira-latas protetor e protegido, carinhoso e acarinhado, dando à cena algo de doméstico, de seguro para aquela criatura que a vida largou debaixo do minhocão para que os passantes pudessem observar ao vivo e em cores como a desgraça tem um quê de singelo, aparentemente para aumentar ainda mais nossa conveniente impotência e nossa culpa, verdadeira ou não.

Ainda pensando na mulher desamparada, abro a caixa de e-mail e encontro mensagem da leitora-amiga de longa data Alba Prado.

Diz ela: "O Talmud é um livro no qual se encontram condensados todos os depoimentos, ditados e frases pronunciadas pelos rabinos através dos tempos. Há um [trecho] que termina assim: 'Cuida-te quando fazes chorar uma mulher, pois Deus conta as suas lágrimas. A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada'."

A sugestão da Alba: "Envie para as mulheres excepcionais que você conhece".

Ok, farei isso.

Mas, infelizmente, não poderei enviar essas palavras tão lindas e verdadeiras para a excepcional mulher do Minhocão: soaria como uma ofensa, uma provocação ou, no mínimo, como uma tremenda ironia...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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