Pensata

Luiz Caversan

25/06/2005

Olhos para ver

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Como que numa mancha disforme e fugidia, as cores fortes passam rapidamente pela janela do carro.

Mal dá para ver que são elas, as gérberas, que chamam a atenção, em seus amarelo-ouro, vermelho, laranja.

Gérberas magníficas, nesta época do ano, e cheia de significados também, senão talvez nem sequer fossem notadas.

Lembranças?

Certamente.

Flores para oferecer carinhosamente, para cativar, atrair, sensibilizar?

Não mais...

Gérberas cheias de significados que outrora recendiam de tulipas ou rosas, e que se tornaram emblemáticas de novos sentimentos; que, agora, levam a outros caminhos.

Caminhos de volta, na verdade, de retorno à reconstrução da auto-estima, do amor próprio, da vivência possível.

Dou-me de presente um belíssimo ramalhete de gérberas, porque aprendo a vê-las de uma maneira inteiramente nova: sua beleza a um só tempo singela e expressiva é o que quero para mim mesmo, muito obrigado.

Assim como a lua cheia no céu frio e sem nuvem sempre esteve lá somente para mim, assim como a necessidade de não mais atender o telefone que toca na madrugada é um imperativo, assim como o paradoxal desejo de não mais buscar o inatingível é uma constatação óbvia.

Recorro a uma frase linda de uma menina linda, manifestando toda a sua impotência diante da constatação de que, sim, tudo passa e a vida pode ficar cada vez mais inexplicável, a tal ponto de o abraço reconfortante da mãe derivar para resultados inesperados: "É que antes, quando eu ficava triste, você me abraçava e a tristeza ia embora..."

Certamente vai demorar para que essa mocinha perceba que ainda terá de aprender a se abraçar, muito e demoradamente, para suprir-se do que aparentemente perdeu.

Espero que não a infinidade de tempo que transcorre para os mais desavisados ou os ingênuos, que ainda imaginam o calor do outro como algo imprescindível na caminhada rumo à "entrada principal" da grande sala encantada da felicidade.

Daí, mais que sentir, a necessidade de haver olhos para ver, enxergar, perceber.

E não adianta abrir os olhos de quem evita, rejeita, não quer saber o que está ali à sua frente, de quem não deseja conhecer o que se leva dentro do coração e da mente.

Não, os olhos só enxergam o que nossos desejos, frustrações, anseios, desesperos, ansiedades ou alegrias, generosidade e solidariedade permitem, e desde que o livre arbítrio também cumpra o seu papel.

Porque, como sempre, há escolhas a serem feitas.

Escolhas que, com os olhos bem abertos e despojados para constatar serenamente, serão feitas possivelmente bem e provavelmente no devido tempo.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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