Luiz Caversan
Obrigado por ser você
Lílian era uma menina gordinha, de olhos puxados e sorriso tímido. Chegava sempre quietinha e demorava um pouco a se revelar, a revelar a sensibilidade e o afeto que trazia, sempre, consigo.
Durante um bom tempo, pouco mais de uma década, Lílian foi uma filha, filha postiça, é verdade, porque era fruto do primeiro casamento da minha então mulher, mas uma filha querida.
Ele não vivia conosco, mas estava sempre em casa, no Rio, onde a natureza, a praia e a descontração de todo o entorno facilitava o que se esperava um bom relacionamento naqueles termos.
Lílian era muito doce e observadora, mas sua timidez fazia com que suas intervenções surgissem muito raramente. E aí residia um grande desafio, que era o de tornar Lílian verdadeiramente parte ativa da nova família, que então se constituía em moldes nada ortodoxos.
Aliás, desde então e acho que desde sempre, defendo a forma não convencional para as famílias. Nada contra a família-padrão desde que ela não fosse, na maioria das vezes, repositório de repressões, fracassos, intransigências e frustrações.
Se é para ser assim, que haja a não-família libertária, generosa, acolhedora.
Mas o que importa aqui é a Lílian: a menininha meiga e de sorriso tímido estará fulgurante logo mais.
Vai se casar, com tudo aquilo a que tem direito: igreja decorada, órgão, parentes e amigos em gala, alegria contagiante.
Estou ansioso como se fosse minha filha natural a encarar a Marcha Nupcial, aquele momento que, seja lá o que possa acontecer anos depois com a família, ninguém nunca esquece...
Mas o que me ocorre aqui, cri-cri que eu sou, é uma passagem obrigatória do casamento, aquela em que o casal é praticamente obrigado a jurar amor eterno, até que a morte os separe.
Discordo inteiramente!
Da maneira como é proposto, esse juramento já soa como punição: vais ter que agüentar seja lá o que for e sua única saída será a morte!
Obviamente não vou ser eu a mudar a liturgia, revolucionar os cânones da igreja.
Caso pudesse, gostaria muito de ouvir não essa sentença a amarrar o casal para sempre; preferiria algo muito mais generoso e singelo, delicado e companheiro, sutil e inteligente.
Que um dissesse ao outro apenas isso:
"Obrigado por ser quem você é e como você é e por estar disposto a ficar ao meu lado dentro das suas possibilidades."
Pronto, estaria lindo, assim como, com certeza, lindo será o futuro que está por começar nesta tarde agradável de inverno
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
