Luiz Caversan
O tempo e a palavra
Frio, muito frio, 12 graus e a street-fashion se faz notar com suas tendências de sempre: trapos sobrepostos, papelões acochambrados para barrar o vento, gorros encardidos cobrindo as cabeças desvalidas.
Os cantos das marquises são as vitrines do meu passeio matinal sabatino, durante o qual trombo com os que nada têm e ali ficam, expondo suas ausências.
Ausência de casa, de comida, de calor, de tudo.
Aliás, já vi este filme...
O sol agora brilhante contrasta com o vento cortante.
Nem tudo são desgraças, só para aqueles que não têm escapatória.
Os que com certeza odeiam o frio e prefeririam outro tipo de street-fashion.
Como a do corredor da moda de São Paulo, Jardins de tantos luxos e couros e peles e lãs e aquecimentos centrais, aliás muito bem centralizados.
Do silêncio dos miseráveis inocentes à eloqüência dos bem nascidos sem culpa, um abismo de injustiça e dura realidade.
Nada mau, eis aí o mundo em que vivemos e que os que morrem por um islã ensandecido querem explodir.
Corretíssimos na sua lógica incorreta.
Nada mau este sábado cinza e frio e depressivo, agora que o sol já se mandou porque não é besta, para supor que há palavras que precisam ser ditas.
Certo alguém me contou dia desses que descobriu a importância da ética da palavra.
Eis como a passagem do tempo cronológico, não o meteorológico, é fundamental para ajudar a entender a dimensão dos sentimentos que se expressam.
Sim, disse eu, sobretudo nunca prometa o que você não vai entregar, nunca diga o que não tem para confirmar, cale quando não houver mais nada a dizer.
Talvez seja este o caso, agora.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
