Luiz Caversan
Tapas e beijos
Olhou como se não visse.
Mas viu.
Viu e não gostou nem um pouco, porque o que estava diante de si não era nem sombra do sonho agora tornado, ali, na cara, de frente, pesadelo.
Houvera um tempo em que tapas e beijos era apenas música de Leandro e Leonardo, poesia barata que sai caro. Ah, muito caro, meu bem, para continuar assim nessa levada.
Olhou mais um pouquinho, os olhos fechados, a respiração pesada, a quase névoa que circundava o sono da inconsciência desejada, quase exigida, porque, aquela realidade, quem enfrentar haveria de?
Olhou e chorou, porque nada mais poderia ser feito.
Houvera um tempo, verdade, em que a esperança suplantava a dúvida, a paixão encurralava qualquer medo, e a vida parecia desfazer-se em idílio.
Ai, ai, idílio é jogo duro, pensou quase quase rindo, porque motivo nenhum existia para isso.
Desfazer-se em lágrimas? Que saco!
Não, melhor alimentar a raiva que iria ajudar a enfrentar o dia que começava a chegar, de mansinho, com sua luz esmaecida, branca e fria.
Os corpos com o suor ressecado não tinham nada mais a fazer --embora o fizessem logo depois, mas o que importa aqui é a idéia não a ação.
Até que o despertar trouxe a implacável necessidade de olhar de novo, agora lá no fundo, olhos nos olhos.
Foi mal, muito mal.
Porque a raiva se instalou de fato e os tapas e os beijos e todas as imagens vieram como uma onda catastrófica, uma tsunami de desprazer e enjôo, preenchendo todas as lacunas de uma felicidade que se envaía.
Foi-se.
Prazer, esperança, desejo...
Ficou apenas um gosto péssimo de baba escorrida no canto da boca.
Uma imagem assim mesmo bem desagradável que era para tentar deletar aquilo-tudo-de-bom que não vai ser esquecido nunca, jamais.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
