Luiz Caversan
Rosa de Nagasaki
Em meados dos anos 90 estive no Japão a convite da empresária Chieko Aoki. Foi um tour extremamente instrutivo, uma vez que permitiu conhecer lados opostos e instigantes daquele país em que moderno e tradicional, passado, presente e futuro convivem em geral, mas nem sempre, harmoniosamente.
Um dos pontos que nosso grupo visitou, porém, tinha uma peculiaridade que remetia a tudo de ruim que a sociedade moderna poderia reunir num único ato, numa única ação.
Nunca vou esquecer a sensação de andar pelas ruas de Nagasaki, a segunda cidade japonesa a receber de presente uma bomba atômica americana no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Agora toda reconstruída e modernizada, a cidade que fora arrasada pelos megatons se impunha como a memória viva do terror absoluto.
Não foi preciso muito esforço, bastou fechar os olhos por alguns segundos para praticamente 'sentir' o que ali se passara meio século antes.
Podia-se até, no silêncio das ruas em uma noite chuvosa, ouvir os gritos lancinantes de alguma das milhares de pessoas que morreram fulminadas ali, em poucos segundos.
Lembra-se por agora as vítimas de Hiroshima e mais uma vez fala-se pouco de Nagasaki. A mente humana é assim mesmo, seletiva.
É provável que um dia não se fale mais nada da hecatombe que se abateu sobre a cabeça de milhares de inocentes porque era necessário vencer uma guerra --Hiroshima e Nagasaki serão verbetes de uma enciclopédia que não será mais folheada.
Nessas horas pode-se, no entanto, recorrer às almas mais sensíveis, que resistem ao embrutecimento e perpetuam na poesia de suas palavras a lembrança do que não deve ser apagado.
Que eu saiba, não há um poema para Nagasaki entre nós.
Mas o grande Vinícius de Moraes deixou um bom motivo para reverenciar os que sucumbiram:
"Rosa de Hiroshima"
"Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas.
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa, da rosa!
Da rosa de Hiroshima,
A rosa hereditária,
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor, sem perfume,
Sem rosa, sem nada.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

