Pensata

Luiz Caversan

13/08/2005

Nem antes, nem depois

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Conheço um monge zen budista, brasileiro e super bem humorado, que usa a seguinte preleção para tentar fazer com que as pessoas relaxem o suficiente para conseguir meditar: "Preste muita atenção no que se passa na sua mente agora. Esqueça todo o resto. Lembre-se apenas de que o passado e o futuro não existem. Porque o passado já passou. E o que virá, o futuro, simplesmente ainda não aconteceu."

Talvez por conta da idade provecta --cinqüentinha na semana que vem...--, tenho refletido muito sobre esta questão do relacionamento com o tempo.

Ainda mais depois da conversa que tive recentemente com a doce e instigante Maristela Mafei sobre o mesmo tema: nossa incapacidade atávica de perceber o que se desenrola aqui, agora, diante dos nossos olhos e sobretudo como isso se opera no complexo sistema de neurônios, receptores e transmissores de nosso cérebro.

"Nós tratamos nossa mente --ela me disse-- como se fosse obrigada a fazer musculação eternamente, sem relaxar nunca! Não nos permitimos parar de pensar para simplesmente perceber a realidade que nos cerca..."

Para completar, recebo via Orkut mensagem simpática de R., que trabalha indiretamente ligada a mim, na qual ela alfineta: "Acho vc um cara inteligente, mas as vezes parece não ver as pessoas na sua frente..."

Eu mereço, é a mais pura verdade.

O que salva a minha pele é perceber que se trata de um comportamento praticamente padrão, essa incapacidade de "não ver as pessoas na sua frente", não perceber as pequenas sutilezas da vida, não notar o quanto estamos aprisionados por pensamentos viciados e viciantes; os contextos paralisantes que nos prendem a sentimentos aparentemente nobres, mas que, no fundo são deletérios.

Eu amo muito uma mulher (isso é um exemplo...), amo tanto, mas tanto que acabo aprisionando o encanto da minha vida num emaranhado de desejos e objetivos e ansiedades que podem levar, e normalmente levam, a algum tipo de frustração.

Quando estou ali, diante da possibilidade plena de exercer minha paixão, os fantasmas de minha memória recente, de meu próprio passado com aquele ser, podem pôr tudo a perder. Não sei me comportar de acordo com o que a vida e a realidade me oferecem ali, naquele momento, mas sim me referindo a padrões estabelecidos (muitas vezes deficientemente estabelecidos) pelo que já passou na relação.

Quando não é assim, o que ocorre é nos comportarmos --no amor, no trabalho, na vida familiar, nas cobranças que temos em relação a nós mesmos-- a partir de uma exigência quanto ao que queremos que aconteça.

Daí a sofrer por antecipação é um passo; daí a permitir que a ansiedade se estabeleça é um nada. E como se sabe, definição clássica, ansiedade nada mais é que o medo do futuro.

Nestes momentos, ao cair nestas armadilhas, damos adeus à qualidade de nossa vida emocional.

Não sou ingênuo o suficiente (talvez quisesse ser) para acreditar na possíbilidade do total desligamento em relação ao passado que nos aprisiona e ao futuro que nos amedronta. Nem burro (só um pouco) para desconsiderar que devemos aproveitar os benefícios de nossa herança cultural e os estímulos de nossas metas futuras.

Mas me comprometi, na virada deste meu meio século, a prestar muito mais atenção no que está acontecendo no "meu" agora.

Para não viver eternamente em função das cinco décadas que já percorri, nem ficar acuado esperando a morte chegar.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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