Pensata

Luiz Caversan

27/08/2005

50 anos esta noite

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A primeira lembrança é a do teto do quarto, avistado dias e dias a partir da cama onde estava preso por conta de um sarampo horroroso que levou 1/4 da audição.

A segunda, o fogo no bambuzal e o pânico que se seguiu de que todo o bairro iria ser consumido pelas chamas.

Isso é o que resta dos 1950.

Na década seguinte, o cineminha rola mais fácil. Copa do Mundo de 62 ("Vocês vão ver como é/ Didi, Garrincha e Pelé/ dando seu baile de bola"), a jardineira que levava à Penha e, de lá, o bonde fechado até o Largo da Concórdia. Lojas Americanas na rua Direita era sinônimo de cheiro bom, a lasanha garantia o regalo na hora do almoço grudado na mãe. Mas também era gostoso se enfronhar pelos corredores da Pirani ("A Gigante de São Paulo"), Eletroradiobrás e do então chic Mappin, defronte ao chiquérrimo e inalcançável Teatro Municipal.

Na distante zona leste, a vida era quase de interior: ruas de terra, frutas no quintal (do vizinho, claro), noite de São João com tantos balões no céu que era impossível contar, a brincadeira de beijo, abraço ou aperto e o primeiro amor.

Na família, sobretudo em torno da tia militante política, coisas estranhas aconteciam. Não mais reuniões e debates calorosos, como na eleição daquele cara estranho chamado Jânio, mas medo e recolhimento diante dos homens de farda que tinham tomado o poder.

Mas havia as tarde de domingo e sua Jovem Guarda amada para aliviar qualquer "barra, mora!", assim como Perdidos no Espaço, Pullman Jr., Nacional Kid, Hebe, já então, em seu sofá e as torcidas nos festivais da Record, "Caminhando contra o vento..." numa "Disparada", "Pra ver a banda passar" em direção à Tropicália.

Daí para os 70, um pulo na memória: mais Copa do Mundo ("Noventa milhões em ação/ salve a Seleção"), o trabalho (odiado) na feira livre junto com a mãe, mudanças de casa, Penha, São Bernardo, um pouco mais de entendimento da vida política cada vez mais reprimida e sufocada, o rock então se enfronha no dia-a-dia, 68 da Califórnia começa a chegar ainda que atrasado, meio que junto com lampejos do movimento beat. Tudo isso mais uma incrível e isolada antecipação do movimento punk entre os proletas jovens, criam um caldo de cultura na zona leste que poderia levar, mas não levou, a uma revolução.

Houve, sim, a revolução pessoal, a decisão (ou ilusão) de interferir na realidade, o jornalismo, a militância sindical, passeatas, greves, já então repórter do Estadão, um luxo.

Música, sempre e muita, assim como paixões se sucedendo em volume e intensidade, como se o mundo fosse acabar amanhã. E nos 1970 parecia que ia mesmo, era preciso, sempre, fazer alguma coisa.

Lá, então, chegar aos 50 anos era quase que uma utopia, porque antes seria necessário mudar o mundo, acabar com as desigualdades, engendrar uma reforma geral no pensamento dominante.

Mas, chega-se aos 50, sim.

E dos 70 pula-se para os 80, os 90 a virada do milênio como se o projetor das lembranças estivesse em velocidade acelerada.

Filha nasce, cresce e vai embora.Trabalho solidifica, faz parte de um processo (Folha) que muda para sempre a cada da imprensa nacional, amores vão, vêm, o que parecia apenas maluquice beleza se instala, em altos e baixos, como depressão, o Rio de Janeiro, por nove anos, é mesmo um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar, das canções a estética evolui para imagens fotográficas muitas, o jornalismo torna-se menos ingênuo e o coração desaba num jardim buscando, primeiro frenética, depois mais calmamente, capturar aquela bela flor.

E assim foi, é e provavelmente será, quando o balanço chegar os 60, 70...

Agora, nos 50 anos desta noite em que há paz, maturidade e a inquietude de sempre na alma, fica a conclusão razoavelmente desconcertante: não adianta perguntar se valeu a pena, porque simplesmente aconteceu.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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