Luiz Caversan
Mau humor
Esta coluna sempre teve o orgulho de receber seguidas manifestações de carinho e apoio por causa de seu espírito construtivo, por abordar as coisas simples da vida, ir além das mazelas do cotidiano e tocar um pouco mais fundo o coração das pessoas.
Mas este espaço de crônicas também é "normal" e sofre com as iniqüidades, com as injustiças e, porque não dizer, com a sacanagem das pessoas.
Portanto, nesta tarde de muito mau humor, aí vai um desabafo na linha: leitores, gostem ou não, é isso aí!
Porque cansei de agüentar a desfaçatez desse monte de políticos corruptos dias e dias na TV, dizendo que nada sabem e nada viram, todos eles morrendo de medo de aparecerem na agenda da cafetina de Brasília.
Também está duro de encarar as vestais da imprensa, todas elas puras e cândidas, acionando à toda suas metralhadoras giratórias, muitas vezes sem escrúpulo algum, como se a atividade a que se dedicam prescindisse da ética.
Estou pasmo com a maneira indecente como os Estados Unidos estão tratando a população de Nova Orleans, sobretudo os negros pobres.
Não quero mais ver funk na novela das oito como se isso fosse chique, nem apresentador de bobagens em programas de bobagens ganhando R$ 700 mil por mês, muito menos jogadores de futebol, estrelas e ídolos de jovens e crianças, conversando com traficantes com vergonhosa intimidade e já não sei mais o que fazer com a impotência de ver aumentarem cada vez mais os malabaristas de cruzamento, que invadiram as ruas de São Paulo, miseráveis em busca de um trocado aí, doutor...
É bom que fique claro que não, não haverá aqui hoje mensagem alguma de esperança e solidariedade, generosidade e afeto, mesmo porque o egoísmo predomina de verdade e o cronista aqui está furioso porque minha cachorra comeu meu tênis predileto, o manobrista bateu meu carro e por não ter recebido presente de aniversário de quem mais esperava, moça à qual, no momento, deseja coisas indescritíveis.
Não, o mau humor é demasiado para manter a linha e aceitar que a vida não se dá como a gente quer, que ninguém é obrigado a gostar da gente, que não se manipula a sorte e o destino de acordo com nossos preceitos, por melhores que sejam, e que não é possível, sempre, ser correto e bonzinho.
Por isso, hoje quero que morra todo mundo, inclusive eu.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

