Pensata

Luiz Caversan

17/09/2005

Da Vinci e o amor

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"Quanto maior a sensibilidade, maior o martírio --um grande martírio" (Leonardo Da Vinci)

Semana de múltiplas provações, fragilidades físicas e mentais expostas e postas à prova, eis que surge no caminho um pouco de alento, na retomada da leitura da biografia de Leonardo Da Vinci, obra do francês Serge Bramly.

O desejo de retornar à trajetória do gênio do Renascimento surgira pouco tempo atrás, com o vazio que ficou após a leitura do "Código Da Vinci", vazio bastante previsível, aliás.

E esta retomada vem em boa hora e oferece descobertas estimulantes sobre tema de interesse cada vez mais presente, se não permanente: o amor, a paixão, o prazer.

Ao abordar os princípios do desenvolvimento intelectual, artístico e moral de Leonardo e tudo o que contribuiu para que ele se tornasse o gênio da pintura, da escultura, da engenharia, da arquitetura, da biologia, das técnicas militares, da anatomia, entre outros predicados, Bramly resvala no comportamento sexual e nos conceitos morais do artista. E é isso que chama a atenção, na medida em que (assim como quase tudo aquilo que ele produziu) o aproxima dos tempos atuais.

De acordo com o autor francês, Leonardo se manifestava perfeitamente de acordo com a moral vigente, segundo a qual "a sensualidade prejudicaria o amor verdadeiro, serviria de freio para a atividade intelectual e dela decorreriam decepções e dores".

Apesar disso, o artista não se furtava do desfrute, e, se é que se pode dizer isso, arriscava. De certa forma fazendo coro, inclusive, às palavras de Petrarca perpetradas no século anterior: "Amo, a despeito de mim, por necessidade, com tristeza e lágrima". Ou: "O amor é um inferno de que os loucos fazem seu paraíso." Ou ainda: "O amor é um suplício que atrai; (...) a morte que tem a aparência da vida".

Mas Leonardo não apenas pega emprestado conceitos de outrem para externar seu conflituoso e aparentemente paradoxal conceito de amor e prazer, como também o faz com palavras próprias, ao descrever uma sua obra: "Prazer e dor são representados [na tal obra] com traços de gêmeos, formando como que uma unidade, pois um não vem nunca sem o outro....".

Ok, o próprio autor da Mona Lisa, precursor do submarino e do helicóptero e amigo dos Médicis, contra-argumenta: "Se o amante se afina com o objeto a que se une, resulta deleite, prazer e satisfação. Se o amante une-se ao que ama, encontra alívio; descarregado o fardo, ele encontra a tranqüilidade."

Porém, e eis um porém que o remete definitivamente à contemporaneidade, ele complementa, sempre segundo Bramly: "Se o objeto amado é vil, o amante se envilece."

Dá o que pensar, não?

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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