Pensata

Luiz Caversan

24/09/2005

Suicidas

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"Estão espantados, têm o espanto nos olhos, e, no entanto, em suas bocas se esboçou uma careta de prazer sombrio."

Prazer sombrio...

Logo na segunda página desse pequeno grande romance, o argentino Antonio Di Benedeto já deixa claro a que veio: incomodar, instigar, imiscuir-se, provocar. Como, ele mesmo lembra, deixou bem claro Camus, este também um suicida: "Todos os homens sãos pensaram em suicídio alguma vez."

Bem, o conceito de sanidade é amplo e varia de acordo com o freguês.

O que têm em comum Baudelaire, Charles Parker, Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway, Eugene O'Neill, Hector Berlioz, Joseph Conrad, Kurt Cobain, Maximo Gorky, Staël, Gauguin, Stefan Zweig e Virginia Woolf além do fato de terem sido absolutamente brilhantes em seus respectivos ramos de criação e terem se constituído patrimônios da cultura ocidental?

Mataram-se ou tentaram fazê-lo, sem êxito.

"Suicidas", o livro de Di Benedetto, lançado em 1969 e agora reeditado pela editora Globo, é uma profunda viagem ao mundo dos que não suportam mais. Não suportam mais seja lá o que for. E tiveram a coragem de dar um ponto final. Ou a covardia de não levantar a cabeça e ir em frente.

"O meu pai pôs fim à sua vida numa tarde de sexta-feira. Tinha 33 anos. Na quarta sexta-feira do próximo mês eu terei a mesma idade", inicia sua narrativa o personagem central, um jornalista que por motivos alheios ao seu passado familiar (13 suicídios entre parentes) vai atrás do que fica justamente atrás de uns tantos corajosos/covardes, eleitos protagonistas de sua série de reportagens.

O que o motiva não é descobrir motivos, retraçar trajetórias, reconstituir as maneiras como aqueles seres infelizes deram cabo da própria vida. O que ele busca é esclarecer o que se articula na segunda página do livro: a expressão, o que dizia seus olhos, o que revelava seu último esgar.

Logo, porém, a viagem do jornalista se torna obsessão, e ele se enfronha em números que dão conta dos suicidas homens, mulheres, jovens, brancos, negros, velhos, casados, solteiros, militares...

Assim como das épocas e dos países em que este ato é praticado com maior ou menor freqüência.

E como não poderia deixar de ser, há a imbricação com os transtornos mentais, sobretudo com a depressão, uma contraposição, como lembra o escritor Luis Gusmán no prefácio do livro, ao peso do pecado que contém o ato de matar-se, de acordo com a religião. Como que uma justificativa à culpa.

Para quem se interessa pelos meandros da mente humana, o livro é um prato cheio, condimentado com estilo e sofisticação literária.

E uma boa dose de lirismo também, ainda que um tanto quanto mórbido e disfarçado na levada cortante e seca do autor.

Como no trecho em que se constata que uma mulher utilizou um revólver para se matar, quando o "protocolo" indica gás ou veneno ou pílulas. Se até na hora da morte o suicida do gênero feminino não abandona a vaidade e preocupa-se com o estrago na aparência que a arma de fogo irá causa, aqui não houve exceção: a moça usou um revolver "pequenininho, calibre 22, para não se machucar muito"...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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