Pensata

Luiz Caversan

01/10/2005

Amorosamente

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Semana marcada por percepções que conseguiram transpor os escândalos, as éticas fraudadas e as estripulias dos eternos 300 picaretas que se tornaram amigos, ainda que circunstanciais, do presidente-homem-do-povo.

Essa realidade que invade nossa casa e nosso cotidiano que fique um pouquinho pra lá, por favor, para que se possa respirar.

E dar espaço, como dizia, a percepções outras.

Pouco tempo atrás este espaço foi dedicado a especulações sobre passado e futuro, para que se concluísse pela inexorabilidade do presente como a única realidade que verdadeiramente há.

Falava do "passado que nos aprisiona e do futuro que nos amedronta" para defender a necessidade de arregalar-se os olhos e tentar enxergar o melhor possível aquilo que se passa bem na nossa cara e que nem sempre compreendemos adequadamente --quando o percebemos...

Claro que é muito, muito difícil aceitar que aquilo que já passou não existe mais, tampouco existe aquilo que ainda não aconteceu, como o fazem os budistas.

No caso do passado, nos atrelamos demais às lembranças sejam elas motivo de saudade e orgulho que não voltam mais ou de mágoas e rancores que nos amargam.

O conceito de herança cultural pode, se tratado com exageros, tornar-se um empecilho para que se vá em frente com leveza e determinação, sem a sensação de que se está arrastando um bonde de responsabilidades ou culpas ou ainda de sensações boas que não voltam mais.

E foi pensando na melhor maneira de se lidar com isso tudo que atentei para a frase que passou diante do meu nariz esta semana: "Tudo vem a seu tempo. Aceite amorosamente seu passado, sua história e arme-se de vontade para a ação."

Amorosamente, eis a chave.

O olhar sem rancor, sem mágoa, sem ciúme, sem culpa, sem melancolia e sem saudades exageradas; sem pena pelo que não é mais, sem tristeza pelo que deixou de ser.

Mas também que seja sem apegos exagerados, obsessões doentias, ou necessidade de domínio e posse.

Apenas amorosamente, intenso enquanto for o caso.

Esta frase, que vem das milenares runas cultuadas pelos vikings, de repente despeja um pouco de otimismo e calma no cotidiano apressado deste começo de primavera.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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