Pensata

Luiz Caversan

15/10/2005

Sábado besta

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Tudo a irritava, tudo: os cachorrinhos e seus donos ridículos todos, os corredores e seus agasalhos fedorentos, os vendedores ambulantes que na verdade ficam parados atrapalhando a vida de quem quer realmente ambular por aí, mas não consegue, mesmo porque vai dar de cara com os corredores e seus agasalhos provavelmente fedidos de suor, a não ser que sejam ricos, daí haverá o cheirinho decepcionante do perfume da moda, aquele mesmo que passará longe, muito longe desses pobres todos com seus olhares tristes e pidões.

Olha pra lá, poxa vida, que é uma porcaria de uma manhã cinzenta de sábado e ela saiu pra rua mas não vai na feirinha de quinquilharias não vai comer pastel na barraca do japonês, não vai ligar pra ninguém, não vai pegar porcaria de fila nenhuma em caixa de supermercado e só de pensar já causa arrepios aqueles corredores de shopping atulhados daquela gente estranha, muito estranha.

Ela, não, ela não se sentia estranha de jeito nenhum.

Achava-se na verdade bem normal, e foi assim normalzinha que se sentiu pouco antes de sair, ao mirar pela janela de trás os velhinhos do asilo andando pra lá e pra cá, sem saber mesmo pra onde ir, até que um deles empacou no meio do pátio e um a enfermeira veio resgatá-lo, vamos pra dentro, vovó, que está garoando.

Alzheimer são os outros, o inferno são os outros, estranho são os outros, de perto ninguém é normal, o horror, o horror e mais algum chavão literomusical poderia assombrar sua manhã de sábado, mas ela não iria deixar, não, mesmo ficando na dúvida entre o Noturno número 1 opus 37 do Chopin, algo do Everything but The Girl ou qualquer coisa desse chato de Jack Johnson que não pára de tocar, bem, que seja, melhor do que Chitãozinho e Luciano ou Leonardo e Xororó.

Quem sabe ela pensou no livro aquele que conta a história da humanidade em apenas 331 páginas (quá, quá, quá!) e também lembrou-se que parou em meio às putas tristes do García-Marques.

Não, nada disso, ela pegou mesmo foi A Razão Gulosa - Filosofia do Gosto, porque o adiantado da hora fazia seu estômago roncar, embora estivesse de dieta.

E leu: "A paixão que anima o desejo de ebriedade é um eco longínquo das práticas infantis."

Era o que faltava para decidir: "Sábado besta. Vou comer uma feijoada..."

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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