Pensata

Luiz Caversan

05/11/2005

Na beira da vida

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O homem juntou suas latas, seus papelões, seus trapos e paus e restos e buscou abrigo rente à coluna do viaduto. De tão grande e tão cheio de gente, pensou o homem, esse viaduto é como uma casa sem parede e sem porta, sem cômodos, sem jardim, sem nada. Mas é a casa que Deus me deu, pensou o homem, arrumando como podia suas tralhas, porque lá vinha o temporal de novo, mais chuvarada para infernizar (Deus me perdoe) a vida desgraçada dessa gente toda que vive na rua, embaixo das pontes, nos cantos, sem eira, nas beiras.

Quantos moram debaixo desse viaduto comprido desse jeito?, pensou o homem com seus botões, que dizer, com sua falta de botões, com sua camisa suja e puída, obviamente sem botões.

Uns vão, outros chegam, mas é sempre muita gente. Quando começa a ameaçar chuva, como agora, ou à noitinha, aí a coisa fica feia. Cada um protege seu canto e seus cacarecos como pode, porque cada pilastra, cada recôndito desse monstro que cruza e enfeia a cidade como uma navilouca de concreto, dominadora, vale mais que uma mansão no Morumbi. Quer dizer, pensa o homem, nem sei como é uma mansão no Morumbi, mas já ouvi falar que vale muito. E sei que o cantinho que eu tenho aqui perto do metrô vale ouro, ainda mais nesse tempo doido sem verão, quando o ar quentinho que sai dos tubos da estação tornam o frio nojento desta cidade úmida e gelada mais suportável.

Agora o problema não é esse. É a droga da chuvarada, que desce como se fosse o fim do mundo e lava tudo, menos a miséria de nossas almas. Não há papelão, pano ou madeira que permaneça seco depois de cada tempestade.

Quem parece não se importar com a chuva, ao contrário, é o vira-latas do homem. Ele corre, brinca com o lixo trazido pela enxurrada, late para o vento, bebe água suja até se fartar.

O negócio é esse mesmo, pensa o homem, tem que levar a vida que nem o cachorro, na brincadeira. Porque depois da chuva chega o frio e aí o bicho vai pegar.

Mas, faça frio ou calor, seja de noite ou de dia, a droga de vida será sempre a mesma debaixo desse viaduto maldito (Deus me perdoe). Tá certo, o viaduto dá proteção, por menor que seja. Mas será sempre um monumento a lembrar o que esta cidade faz com quem se deu muito mal na vida.
Que vida?

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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