Luiz Caversan
Melhor ser alegre que ser triste
"Tomara que o seu desejo vença a razão, a preguiça, a sanidade, o medo, a responsabilidade, o dever, o cansaço, a vontade de desistir, as dores, a piedade, a falta de tempo, a prudência ou qualquer outro impedimento real ou imaginário."
A frase acima me foi enviada pela leitora VC como um desafio, do tipo "joque-se", no momento mesmo em que começava a esboçar este texto dedicado a Vinícius de Moraes. Não sei de quem é a autoria da frase. Se dela, leitora, meus parabéns. Se não, está muito bem dado o recado.
E além do mais tem tudo a ver com o que se pode ver nas telas de cinema do país no sensacional documentário "Vinícius", dirigido por Miguel Farias Jr.
Não quero aqui resgatar o lado crítico cinematográfico, mesmo por que não estou, se é que estive, habilitado para isso. Só digo o seguinte: não perca, vá, assista, jogue-se, emocione-se.
Além além de todo o resgate emocional de uma era que vivi parcialmente, o filme trouxe de volta viva e claramente a imagem de Vinícius e de seu entorno no Rio de Janeiro, que também tive o prazer e a honra de conhecer.
Morei em Ipanema a maior parte do tempo em que vivi no Rio de Janeiro, nos anos 1990. Uns bons anos depois, portanto, de o diplomata, poeta de primeira linha, compositor, cantor, boêmio e sobretudo amante, das mulheres e da vida, já estar bem instalado no grande e confortável boteco que há lá no céu.
Mas ele sempre permaneceu por ali, por Ipanema, eu vi e senti isso! Seu estilo, sua irreverência, sua gentileza, sua poesia, sua pureza, sua criatividade sempre puderam ser encontrados aqui e ali, no mínimo recordada ora num cumprimento gentil de Tom Jobim, ora num jeito peculiar de um carioca amigo fazer uma observação sobre a vida, ora na poesia que trafega generosamente preguiçosa naquela fantástica faixa de areia que vai da lagoa Rodrigo de Freitas até a avenida Vieira Souto.
Passando, diga-se sempre, pela rua Nascimento Silva, onde nasceu a Bossa Nova na casa de Elizeth Cardoso; pela rua Montenegro (hoje Vinicius de Moraes), onde encontra-se (descaracterizado, claro) o bar do qual Tom e Vinícius viam a Garota de Ipanema passar, num doce balanço a caminho do mar, antes de perpetuá-la na canção mais famosa do mundo. E passando também pelas recordações ou seja lá o que for que restou de todos os demais bares: Jangadeiros, Antonio's. Florentino etc. etc.
Bar, boteco, Rio de Janeiro, Ipanema e Vinícius de Moraes foram sinônimo durante muito tempo, e os quatro primeiros ainda o são. Que me perdoem os politicamente corretos que apontam e devem mesmo apontar os malefícios do álcool, mas botequim, neste caso, é fundamental. Sem ele o Rio's way of life não existiria, e nosso patrimônio musical seria incomensuravelmente mais pobre.
Só para voltar ao filme, ele é basicamente calcado em testemunhais de quem viveu o poeta _ porque, depois de ver o filme, você percebe que para os mais próximos não era possível simplesmente viver com
Vinícius.
Sensacionais: as falas do poeta Ferreira Gullar, sobretudo quando ele rememora a alegria de Vinícius e de sua (Gullar) bronca contra os que acham melhor viver triste do que alegre.
E as declarações hilariantes de Tônia Carrero, que revelou uma brincadeira que os amigos faziam com o poeta, que o deixava furioso:
"Quando ele entrava no bar, nós cantávamos:
Seu eu tivesse se eu tivesse muitos vícios
Eu chamava, eu chamava Vinícius
Mas se esses vícios fossem vícios imorais
Eu chamava Vinícius de Moraes"
Formalismos, vícios, virtudes, imoralidade... bem, basta conhecer minimamente a obra de Vinícius de Moraes (1913-1980) para saber que isso tudo é muito, muito relativo...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

