Luiz Caversan
O domínio do medo
A chuva cai forte e grossa, o Airbus vermelho e branco ruge na pista, mas não decola: o Sr. Presidente e seu Boeing branco com detalhes verde-amarelo têm prioridade, claro; em qualquer lugar do mundo é assim, mas Zé Dirceu, Mensalão, PIB despencando, juros não, sei lá, o avião presidencial incomoda mais, hoje.
Congonhas fica para trás, a chuva é vencida e as nuvens passam rápido, enquanto o Rio de Janeiro se aproxima.
Não, não é e está longe de ser maravilhosa a cidade nesta manhã densa e enevoada de sexta-feira.
O centro-ainda-que-um-tanto-belle-epoque da cidade está estranhamente calmo e vazio, os compromissos se sucedem rapidamente no conforto do ar condicionado, o almoço no Vilarino, um dos diversos "berços da Bossa Nova" traz recordações, e no fim da tarde vai-se para a zona sul, Ipanema-Leblon, como quem caminha em doce balanço, caminho do mar.
Mas há algo estranho no ar.
Cadê o Cristo?
Não se vê nada, apenas o branco inexpugnável da neblina e da chuva fina.
O motivo do "sumiço" do Cristo não é meteorológico, logo se descobrirá.
É vergonha, ele sumiu de vergonha.
O Cristo Redentor, no alto do morro do Corcovado, no maciço de colinas da Tijuca, fica de frente para a baía de Guanabara. Ao seu lado direito, a lagoa, a zona sul e o mar. No lado esquerdo, zona norte e seu mundão de tudo o que a zona sul não quer, não comporta, exclui.
E é de lá que vem a explicação para o clima pesado que se respira: o 350.
Tudo vira rapidamente uma sigla, um número, por aqui. E esse número é tenebroso, deixa a todos meio calados e cabisbaixos, ou indignados, irados.
É o número do ônibus incendiado por traficantes há poucos dias, tornado um forno dentro do qual morreram cinco pessoas e outra dezena delas ficaram feridas.
O horror, o horror, vale repetir ainda uma vez aqui a frase de Kurtz em "No Coração das Trevas", de Joseph Conrad. É a barbárie. A ausência de qualquer senso: de direção, de ética, de humanidade, de tempo ou espaço.
Traficantes? Sim, traficantes de emoções perniciosas, sentimentos embrutecidos, raiva secular e desmedida contra aquilo que foge à sua compressão; ignorância cristalina, pura, "da boa": gasolina em todo mundo, um fósforo e pronto, tá tudo dominado...
O tempo está fechado e o Cristo se esconde atrás da cortina de densa neblina e o Rio de Janeiro do coração mais e mais e mais uma vez sucumbe por conta do descaso, do abandono, da incompetência de seus públicos homens de sua trajetória bipolar, de êxtase e melancolia profunda.
Triste.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

