Luiz Caversan
Bimbalham os sinos
"Odeio esta época!"
A exclamação da amiga pega de surpresa.
Ela estava simplesmente tentando fazer algo que, pelo menos segundo disse, gostaria muito de fazer: jantar comigo.
"Mas na segunda tem um encontro de amigas antigas, na terça apresentação da escola de um filho, na quarta reunião na escola do outro filho, na quinta jantar com as ex-cunhadas, na sexta festa da firma". E no sábado eu vou viajar...
"Odeio ser obrigada a ter tantos compromissos e não poder fazer o que quero..."
Minha amiga ficou lá tentando me "encaixar" na sua louca semana pré-Natal, enquanto eu aqui refletia: todo ano é a mesma coisa. Preciso encontrar fulano, não posso esquecer o presente de beltrano, cadê o telefone daquele desgraçado que eu tenho que desejar feliz Natal e próspero ano novo, para ele e para a família.
Claro que no cotidiano fora das grandes metrópoles, onde a vida ainda rola mais mansa, as coisas devem ser diferentes. Mas pelo menos o dia-a-dia do mês que precede o ano novo na megalópole brasileira a vida fica infernal (trânsito, shoppings, correria, estresse).
Por isso, assim como minha amiga, tanta gente odeia "tudo isso"
Baita contradição, certo?
Como assim, odeia? Afinal esta não é a época da "fraternidade", "amor ao próximo", "solidariedade"?
A questão é justamente esta: fraternidade, amor ao próximo, solidariedade com prazo fixo. Vale só no mês de dezembro.
Se você desejar tudo de bom para alguém em novembro, vão te olhar com cara estranha; se deixar pra janeiro ou fevereiro, a cara será mais estranha ainda ("Olha só, esqueceu de mim agora vem se desculpando", certamente pensarão).
Não, não: você tem só um mês para acreditar no amor, distribuir gentilezas, felicitar o próximo, agradecer a Deus por poder dar, e de fato ter que dar, presente pra todo mundo.
Caso contrário corre o risco de passar por um ingrato, ímpio, um ser anti-social, enfim.
Ou seja, é preciso botar um sorriso nos lábios e se engajar na hipocrisia coletiva.
Para não fazer papel de hipócrita.
PS - Agora me dei conta de que o título e o tema deste artigo são idênticos ao do que escrevi, nesta mesma época, no ano passado. Tudo bem: todo ano é tudo igual mesmo...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

