Luiz Caversan
A vida por um nada
Pessoas nascem, crescem e morrem todos os dias desde sempre, e nos esquecemos disso ao nos apegarmos ao que nos cerca como se tudo aquilo, aquele nada, fosse definitivo.
A vida não vale nada, dizia minha mãe três décadas atrás, numa constatação óbvia que prevalece até hoje. Não que a vida não tenha valor, explicava dona Julia, mas não vale nada porque agora está aqui tudo muito bem, tudo muito bom e de repente, puft!, foi-se.
A minha amiga principal inspiradora desta coluna me chamou a atenção para isso ontem: lá estava o homem labutando no telhado da universidade em que ela trabalha e de repente, puft!, caiu e morreu no chão duro e frio, atrapalhando a aula, para parafrasear o Chico Buarque no seu operário desconstruído.
Outro caso também de ontem: a moça está ali bela e formosa na janela quando o cara do último andar passa à toda, gritando, para, puft!, espatifar no corredor do prédio, indo-se.
E sempre ontem, mais tarde, vejo as imagens da favela incendiada em São Paulo. Nem procuro saber se morreu alguém no incêndio, mas as imagens deixam claro, tiram qualquer dúvida de que há poucas coisas tão mais desgraçadas do que a pessoa viver (?) ali naquele amontoado de tábuas e latas entremeadas por canais de excrementos e lodo e o pouco que ela tem, o nada que conseguiu amontoar para tentar minimamente sobreviver, e de repente, puft!, foi-se, virou fumaça.
Sei não, se nessa época, em que pese a chatice toda do comercialização galopante, a gente fica mesmo mais sensível e olha o ser humano, do que cai do telhado ao que queima na favela, passando pelo motoqueiro atropelado, pelo executivo amigo seqüestrado e que nunca mais apareceu, pela brasileira esfaqueada pelo namorado nos States, pela criança que morreu, o que devia ser proibido, antes dos pais, pelo mendigo que outro dia mesmo sucumbiu à fome e à miséria outro dia debaixo do Minhocão, a gente olha tudo isso e não consegue entender direito por que e como a vida está sempre por um nada.
De repente, puft!, foi-se. Por um nada...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

