Luiz Caversan
Na contramão
A manhã já estava quente, muito quente e pegajosa, como o são as manhãs quentes do verão paulistano. E lá ia o homem, branco, roupas limpas, cabelos aparados, barba feita, na contramão. Os carros zuniam ao seu lado, motoristas buzinavam, gritavam, assustados. "Tá louco, meu!"
O "meu" em questão não estava nem aí: ia a pé na contramão da avenida atulhada de automóveis em alta velocidade àquela hora.
Olhos vidrados, mirando o infinito, tinha evidente pressa, parecia carregar uma raiva determinada. Uma raiva secular, expressa mais ainda na mão direita crispada no pedaço de pau que brandia de vez em quando.
Andava perigosamente pela avenida como que em busca de um futuro que ia na direção oposta. Talvez em busca do vertedouro de todos aqueles carros, de todas aquelas neuras, da sua própria neura.
Seria "apenas" mais um maluco nessa cidade em que os malucos proliferam pelas ruas, não fossem dois detalhes: 1) ele andava na contramão 2) vestia uma camiseta amarela com a inscrição Brasil, bem grande, no peito.
O Brasil na contramão.
Faça o leitor a ilação que quiser com esta imagem.
De minha parte, concordo com o José Simão: este é o país da piada pronta...
Tenho verdadeira fascinação por essa gente desconectada que anda solta pelas ruas ou por baixo das pontes e marquises. Não uma fascinação prazerosa, claro, mas uma curiosidade meio antropológica, meio psicológica, meio que uma identificação de fundo com aqueles que não sabem de onde vêm nem para onde vão.
Tempos atrás escrevi aqui sobre a mulher que, seminua, cortava o cabelo no reflexo do vidro dos carros que paravam no sinal fechado. É perto de onde moro, e a mulher sumiu. Deve, como em outras vezes, ter sido recolhida a alguma casa de saúde pública.
Será que voltará ao seu "ponto"?
Será que ficará ali, cortando o cabelo, mastigando freneticamente um chiclete imaginário (provável conseqüência, de acordo com uma psiquiatra amiga, dos calmantes que lhe enfiam goela abaixo nos hospícios)?
Espero que sim.
Porque esse tipo de gente, para mim, revela despudoradamente nas calçadas um pouco daquilo que cada um de nós esconde nos recônditos de nossas mentes.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
