Pensata

Luiz Caversan

21/01/2006

Sou contra

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Eu queria dizer que em meio a um arrebatador surto de niilismo e indignação descobri que sou incontrolavelmente contra. Basicamente contra 10 coisas:

1 - Todos os que insistem em demonstrar, por meio de sua imoralidade explícita, o quanto devemos nos sentir envergonhados por conta da imoralidade explícita que transborda neste país.

2 - Todos aqueles que se julgam no direito de julgar aqueles com quem não concordam, apontando com seu dedo sujo a desinteligência que não enxergam em inúmeros de seus mínimos atos.

3 - Todas essas crianças miseráveis, sujas e desagradavelmente remelentas que insistem em demonstrar nos cruzamentos suas habilidades com aquelas bolinhas sujas e miseráveis, deixando claro, culposamente claro, que estamos fazendo alguma coisa muito, muito errada.

4 - Todas essas pessoas lindas, magras quando não esqueléticas, e suas roupas número 38, desfilando pelas passarelas fashions weeks da vida, acabando com a auto estima dos não magrelos, meio ou muito feiosos e os que têm manequim acima do 44. Uma injustiça...

5 - Todos os que comentam o dia a dia dos personagens do "Big Brother" como se estivessem falando de pessoas normais vivendo situações comuns, como se aquilo sim fosse assunto sério a merecer debate e polêmica.

6 - Filhos que morrem antes dos pais, como aconteceu com o motorista de táxi que eu conheço, inconsolavelmente desolado ("o que será que eu fiz pra Deus?"), porque seu filho foi arrastado pela correnteza de uma inundação de janeiro.

7 - As inundações de janeiro, o calor nojento da cidade de São Paulo, o trânsito nojento que empareda quem quer deixar a cidade de São Paulo, o mau cheio e os pernilongos que infestam os rios que circundam São Paulo e esse sol que castiga aquele bebê ali na esquina que fica no colo da mãe adolescente pedindo esmolas, aproveitando o movimento que aumenta, quem sabe por ser janeiro.

8 - Armas, todas, quaisquer.

9 - Intolerância, guerra, fanatismos, todos.

10 - Hipocrisia, amores não correspondidos, incapacidade de se apaixonar, incapacidade de compreender os filhos, culpa por não ter compreendido os pais, brutalidade do amor a todo custo, o ridículo da realidade fantasiosa do "sem você meu amor eu não sou ninguém...", a incapacidade que muitos, talvez a maioria, têm de conviver com as diferenças do outro. E até mesmo de aceitar as suas próprias diferenças, como se devessem estar, sempre, a favor.

Por isso eu sou contra.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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