Pensata

Luiz Caversan

28/01/2006

Orelha quente

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- Xi, olha como minha orelha esquerda está quente. Estão falando mal de mim!

- Bobagem, isso não existe.

- Existe sim, põe a mão. A orelha direita está fria, a esquerda está quente, tem alguém me detonando.

- Faz diferença se é a direita ou a esquerda?

- Não. Mas que estão falando, estão. As pessoas adoram falar mal dos outros.

- Ah, isso é verdade. Tem gente que não agüenta; mesmo quando elogia acaba falando mal, botando um defeitinho aqui, outro ali...

- Que defeito será que estão botando em mim?

- Que você está gorda...

- Você acha?

- Claro que não, te disse agora há pouco que você está magrinha. Mas mulher adora dizer que a amiga engordou.

- Vê lá, não mente pra mim...

- Eu não minto pra você

- E homem, diz o quê?

- Como assim?

- Que defeito um homem põe no outro?

- Ah, sei lá, que o amigo está barrigudo, é broxa, está ficando careca...

- O que você prefere?

- Como assim?

- Barrigudo, broxa ou careca?

- Tá louca? Nenhuma das anteriores, ora. Mesmo porque não tenho barriga, nunca broxei e não estou ficando careca.

- Hummmm, sei não... pelo menos seu cabelo está ficando ralo no cocuruto.

- Pelo menos?! Como pelo menos? Ah, já entendi, resolveu me detonar, falar mal de mim, é?

- Imagina, eu. Não falo mal de ninguém?

- O ser humano não falha, minha querida...

- Não sou eu quem fala mal de você?

- Então quem fala?

- Sei lá se alguém fala...

- Eu acho que fala, afinal todo mundo fala.

- Bem, só há um jeito de saber?

- Como?

- Veja se sua orelha está quente...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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