Luiz Caversan
Crianças e serpentes
Muitas e muitas vezes o ovo da serpente foi utilizado como metáfora para exprimir a constatação de um mal em processo de elaboração, de incubação. Nele, no ovo da serpente, no desenvolvimento do ovo, pode-se acompanhar a lenta e inexorável evolução do monstro que irá nascer.
Essa imagem ressurgiu nos últimos dias par e passo ao asco provocado pelo noticiário sobre violência contra crianças.
Aumentaram os casos de agressão física contra crianças, certamente a mais covarde de todas as agressões, ou foi a visibilidade que cresceu?
Qualquer que seja a resposta, a relação com o ovo da serpente será a mesma.
Que tipo de "monstro", capaz de que gênero de perversidade, com qual grau de frustração, medo e disposta a cometer que número de atos violentos será o adulto que, quando criança, foi submetido a situações como estas:
1 um bebê de um ano rolou escada abaixo, sofreu fraturas múltiplas, inclusive craniana, depois ter sido chutada pelo pai. Estava no andador e chorava muito, alegou o homem, de classe média.
2 Um homem de quarenta anos brigou com a namorada no interior de São Paulo. Encolerizado, espancou severamente o filho da moça, de 5 anos. O garoto denunciou o homem. Indagada pela polícia, a mulher disse que nada viu.
3 Na Baixada Santista, em São Paulo, dois irmãos de 4 e 5 anos foram encontrados em casa pela mãe aos prantos. Exibiam marcar de mordidas e cortes no couro cabeludo provocados pela babá. Eram muito travessos, alegou a criatura.
4 - Olhos roxos, hematomas por todo o corpo, sinais de violência sexual apresentava a menina de 6 anos ao ser encontrada quase desacordada pelos vizinhos. Na mesma casa os vizinhos se depararam com o padrasto da garota dormindo alcoolizado e com fios de cabelo da jovem entre os dedos. Quando a policia chegou quem estava com olhos roxos e hematomas por todo o corpo era o homem.
5 Um garoto de 15 anos matou o namorado da mãe a facadas enquanto ele dormia. Disse que não agüentava mais apanhar nem ver suas irmãs sofrerem nas mãos daquele "monstro".
Psicólogos ouvidos pela Folha na semana passada afirmaram, em resumo, que esse tipo de violência é uma conjunção de fatores, mas destacaram um: violência transferida. Frustrado, oprimido pelas vicissitudes da vida, às vezes com vontade de agredir um chefe ou um desafeto, e incapazes de realizar essa impulsividade, esses adultos acabam endereçando a fúria à criança, impotente em sua fragilidade.
E quantas vezes esta criança, de sua parte, irá transferir a violência, agredindo irmãos ou amiguinhos menores, ou torturando animais, para, mais tarde, tornarem-se os adultos violentos que serão destacados no noticiário de sua época?
De acordo com dados oficiais, o Disque-Denúncia de São Paulo registrou no ano passado quase 5 mil ligações sobre abusos contra crianças. Os próprios familiares ou "amigos" da criança (em geral com 6 a 8 anos) são sempre os principais suspeitos.
Esses, claro, são os casos que vêm a público.
Quantos serão, meu Deus, aqueles em que o ovo da serpente está escondido, longe dos olhos e das consciências saudáveis, gerando silenciosamente seu monstro?
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

