Luiz Caversan
Amor sem fim
Chovia muito, e o interminável jardim era de fato e de direito um mar de lágrimas.
O cemitério não tem sepulturas, o que empresta um aspecto bucólico àquele último paradeiro de tantos.
Um jardim de almas.
O homem cujo corpo ali chegava era mais um dentre aqueles todos.
Mas único para os seus.
E isso tornava o mar de lágrimas ainda mais inundante, todavia plácido.
Companheira de décadas, a mulher externava todo o seu amor; derramava-o, para continuar na metáfora das águas.
Derramava-o sobretudo porque era de fato transbordante, infinito, doce, profundo, comovente.
Vinha de muitos anos, mas tudo deixava claro ali que não desgastou-se, não sucumbiu às intempéries tantas da vida, nem mesmo à degeneração imposta ao homem pela moléstia cruel. Ao contrário, o declínio físico solidificara ainda mais as pontes, aquelas, que os unia; tornara-as irremediavelmente necessárias, definitivas, até que chegasse aquele dia, coincidentemente chuvoso como as lágrimas daquela mulher que via seu amor ir-se, sem deixá-la, porém.
Ficara e ficará para sempre, nem a chuva cada vez mais forte diluíra aquele afeto.
Não tive o privilégio de presenciar tal comoção, embora conheça os protagonistas, sobretudo a mulher, personagem cativante e original que aprendi a admirar à distância, depois de conhecê-la, lendo-a, ouvindo-a, com ela aprendendo muito sobre seu mister.
Trata-se, este relato, da reprodução do que me foi reportado, com a emoção e carisma que lhe são peculiar, por uma espectadora privilegiada deste exemplo exemplar de como o tempo, as dores e as voltas todas que a vida dá não são suficientes para embaçar o brilho renitente, pertinaz de um amor sem fim.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

