Pensata

Luiz Caversan

11/03/2006

Sem dó nem piedade

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Não quero piedade nem favores, disse ontem na TV a menina de ouro boxeadora no fantástico filme do Clint Eastwood, este um exemplo definitivo de que o que era muito ruim, ele como Dirty Harry ou como um cowboy qualquer, pode com o tempo se transformar em muito bom, ele como diretor de "Bird", de "Os Imperdoáveis" ou deste comovente exercício de aproximação entre algo tão brutal quanto o boxe de algo tão profundo quanto a generosidade humana.

A menina (interpretação maravilhosa e "oscarizada" de Hilary Swank) diz a Frankie (Clint) que não quer piedade dele, muito menos favores. Ela acha que é boa e que vai ser uma campeã, insiste apenas para que ele a treine, uma vez que sabe bem atacar, mas quer aprender a sempre se proteger...

Não quero piedade nem favores, preciso sempre me proteger.

Taí um paradigma que estabelece parâmetros aplicáveis a relações as mais diversas, seja ela a do treinador com o treinado, do chefe com o subordinado, do amante com o amado.

Neste último "rapporto", por exemplo, o ideal seria mesmo abrir mão de todo e qualquer tipo de sentimento dessa natureza, como o daquele ou daquela que espera reconhecimento para ser amado ou dos que têm piedade por não poderem corresponder ao amor com o qual não sabem lidar, sem que nem uns nem outros tenham verdadeiramente domínio sobre seu sentimento ou clareza sobre suas intenções, senão iria cada um para seu lado (ou córner, para ficar na metáfora esportiva de Eastwood) e pronto, acabou, fim da luta, com empate técnico, sem vencedores...

Mas nem sempre é assim, quase nunca é assim.

Da mesma forma que o relacionamento afetivo tantas e tantas vezes se dá entre dominador e dominado, ou seja, enviesado pelo exercício autoritário do poder de uma ou em alguns casos paradoxais de ambas as partes, nestes casos ele sucumbe à desinteligência para sobreviver à custa de uma dependência a um só tempo cruel e inaceitável, que é a do que espera piedade ou favor "versus" o que corresponde a isso sem saber exatamente porquê.

Bem, é inaceitável pelo menos do ponto de vista de quem, como a nossa boxeadora do filme, julga que pode, sim, vencer suas limitações.

Superar incertezas e necessidades para alcançar a coragem de dizer não.

Alguém, numa praça fria e nevada, escreveu outro dia que "amar é aprender a conviver com a felicidade fortuita".

Melhor não, se essa felicidade depender de implorar favores ou de engolir piedades.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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