Pensata

Luiz Caversan

18/03/2006

Ensina-me a viver

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Ele olhou bem nos olhos vivos e brilhantes, brilhos que escapavam por entre os cabelos vermelhos, e disse:

- Vai, diz tudo, conta, ensina, fala como é, dá o caminho das pedras, porque essa sua felicidade me sufoca, transforma minha depressão em culpa e meu mau humor em tentativa crônica de suicídio. Vai, ensina-me a viver...

Nem esperou que ela conseguisse parar de rir e continuou:

- É justamente isso que eu quero, ter a capacidade de rir assim da cara de quem me incomodar como eu estou te incomodando agora. Não, não estou incomodando? Está vendo, não sei de nada, nem se incomodo ou não, se ri porque se diverte apenas ou se são minhas lamúrias e desencantos da vida que te chateiam a ponto de você não ter outra saída a não ser rir da minha cara. Não, está apenas rindo na minha cara? E qual a diferença? Olha aí, nem sequer sou capaz de diferenciar o que se passa bem diante do meu nariz. Vai, ensina-me a viver...

Ela ficou séria, jogou os cabelos vermelhos para trás, e esperou, porque ele continuaria. E continuou:

- Verdade, não agüento mais ver você assim, flanando na vida enquanto eu carrego um fardo de duas toneladas nas costas, que são as minhas dores de todos os amores e frustrações e desencantos e medos e raivas de tudo o que não fiz, porque do que fiz não me arrependo, não. Sua felicidade me angustia, e isso, essa constatação, me angustia ainda mais. Sou eu, o banana aqui, o símbolo acabado e lapidado dos fracassados na arte de estar de bem com a vida. E você aí, com essa cara de tacho feliz, divertindo-se às minhas custas! Vai, ensina-me a viver...

Ela acendeu um cigarro (só para provocá-lo, porque ele fumara durante 25 anos e parara, e ela, aos 19, fumava desde os 15) soltou a fumaça pra cima e suspirou. A deixa para ele emendar:

- Ok, não vou insistir, mesmo porque não vai adiantar nada, você vai fazer como sempre, esperar eu cansar de reclamar e brigar e dissimular porque vai acontecer isso mesmo, e você com esse seu frescor matinal não vai estar nem aí, porque você se diverte gostando de mim, não é? É um desafio que você se impôs e vai levar isso como se fosse uma matéria da faculdade: chegar ao fim do ano com nota 10 em agüentar um fracasso em forma de homem, que não consegue admitir, meu Deus, que alguém tão linda, tão jovem e tão feliz possa, sim, querer ficar ao seu lado. Fica, vai, ensina-me a viver...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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