Luiz Caversan
Mirabelle e a depressão
O filme "A Garota da Vitrine", em cartaz nos cinemas, é vendido como um romance dos tempos atuais, um água-com-açúcar, bem açucarado mesmo com a presença do chato do Steve Martin. Ok, sou eu que o acha chato, mas o que pouca gente sabe é que ele revelou-se ume excelente escritor.
O filme, na verdade, é baseado no seu livro, que pouco tem de água com açúcar e aborda de forma bem interessante não apenas os temas destacados no filme, mas principal e particularmente a depressão, doença que acomete a protagonista do filme/livro. Se na tela esse aspecto fica minimizado, no livro é relatado de forma soberba. Veja um trecho do livro. Os depressivos que identifiquem-se.
"Mirabelle está presa no trânsito engarrafado (...) Trancada na escuridão do carro com os limpadores de pára-brisa marcando o tempo, ela se sente desconfortável (...). A sensação de desconforto dá lugar à assustadora impressão de que sua mente levita momentaneamente sobre seu corpo. (...) seu coração acelera. Ela já recebeu um aviso sobre isso meses atrás. O aviso da iminente visita do visitante nunca bem-vindo. Um visitante que penetra no seu corpo, voa por dentro dele e depois vai embora. Desta vez a sensação é mais forte do que das anteriores, e o visitante permanece mais tempo dentro dela. É como se seu corpo fosse mantido no chão por alguns pesos enquanto sua mente se desmantela metodicamente.
A escada que vai de sua vaga de estacionamento (...) até a porta da frente parece não acabar nunca. Ela arrasta o corpo degrau por degrau. Depois de virar a chave, tem a impressão de que a porta ficou muito mais pesada. Uma vez dentro da casa, senta-se na almofada e lá permanece na mesma posição durante horas.
(...)
Mirabelle já passou por isso antes, mas o poder da depressão faz com que não se lembre de que seu problema é químico. Como já aconteceu muitos anos atrás, seu remédio atual não faz mais efeito.
O telefone toca, mas ela não encontra forças para responder. (...) Arrasta-se até a cama sem ter comido um biscoito. Fecha os olhos, e a depressão a ajuda a dormir. O sono, entretanto, não é um alívio. A depressão, que geralmente espera a manhã para voltar a fazer-se sentir, permanece dentro de Mirabelle e envenena seus sonhos.
(...)
Ao meio-dia chega a pensar em telefonar para o médico (...). Mas ela não telefona. O mal-estar provocado pela química faz com que se desinteresse por tudo, inclusive ficar boa. Vê tudo o que tem significado em sua vida afastar-se dela --seus desenhos, sua família, Ray Porter.
Pela primeira vez pensa que estaria melhor se estivesse morta."
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
