Luiz Caversan
O estigma dos menos iguais
Basta conversar com qualquer pessoa que em algum momento da vida tenha tido de enfrentar uma crise de depressão, esse transtorno de tantas facetas e tantas interpretações, para concluir que o estigma que o deprimido carrega para todo lado certamente tem um componente cultural muito forte. Um componente que é próprio da relação social entre as pessoas ditas "normais" com os mais variados tipos de transtornos ao longo da história da humanidade.
Os agrupamentos humanos sempre reservaram tratamentos diferenciados para os "menos iguais", principalmente para aqueles cujo comportamento era difícil de entender ou impossível de explicar. Esse tratamento foi, em determinadas épocas, do isolamento ao castigo físico e muitas vezes teve um componente religioso bastante forte, já que não ostentar o comportamento padrão poderia ser facilmente confundido com possessão demoníaca, distanciamento de Deus ou algo semelhante.
Na sociedade contemporânea, as coisas mudaram, e a ampliação do conhecimento em relação à mente humana fez com que a depressão, entre outras enfermidades, fosse mais bem compreendida. Mas, na verdade, o estigma se sofisticou, agora atendendo aos ditames impostos pelos padrões da vida moderna, das relações do trabalho, do comportamento familiar e social, da vida privada, enfim, que no fundo "os outros" querem tornar pública
Agora, é interessante notar como a questão do estigma pode facilmente se converter numa espécie de armadilha --na verdade, mais uma entre tantas outras-- em que o deprimido acaba se enfiando por conta dos sintomas que verdadeiramente existem somados àqueles que ele mesmo inventa em seus devaneios.
Pode-se dizer que se trata de uma atitude padrão entre os deprimidos sentir-se permanentemente notado por seus defeitos ou por aquilo que não consegue fazer. Por mais normalidade que continue a exibir em seu dia-a-dia, ele não tem dúvidas de que é alvo da atenção quando não da condenação pública --de onde advém uma espécie de tristeza sobre a tristeza. Pior que isso só quando o deprimido sente que "ainda" não foi descoberto pelos seus pares, mas que isso poderá acontecer a qualquer momento --o que acaba por gerar uma ansiedade destroçante..
O deprimido é antes de mais nada um culpado. Como ele "sabe" que todo mundo sabe que ele não está bem, que deveria estar fazendo alguma coisa para mudar alguma coisa, mas que isso não ocorre, sua auto-estima sucumbe permanentemente ao peso dessa responsabilidade --que em geral existe apenas nas suas fantasias, quando não em delírios.
O fato de o estado letárgico em que a depressão mergulha seu alvo impedir que ele corresponda às suas próprias expectativas faz com que ele se sinta humilhado, comprimido, esmagado pela aparente facilidade com que as pessoas à sua volta continuam a levar suas vidas normalmente.
O sono do outro é uma humilhação para aquele que não consegue dormir, o prazer da gastronomia pode valer como que um veredicto de "culpado" para o que não suporta a idéia de enfiar alguma coisa goela abaixo, o riso extrovertido de quem quer que seja atua como uma arma afiada rompendo os tímpanos do que chora sem saber remotamente porque.
E o perfeccionismo que surge nos momentos de maior tensão? Esse é de dar inveja a qualquer virginiano. Com o pequeno "detalhe" de que o perfeccionismo que grande parte dos deprimidos passa a exibir ocorre às avessas e serve apenas para o forçar a "perceber" como tudo o que faz é mal feito e como a suposta perfeição do que é feito do "lado de fora" de suas limitações só evidencia isso. Esse tipo de disfunção pode significar a ruína profissional de quem, num determinado momento da vida, passa a considerar sua expertise, o saber que acumulou na vida, irrelevante ou de qualidade inferior. Obviamente, quando esse juízo de valor assume determinadas proporções, acaba de fato incapacitando o deprimido para o trabalho.
Claro que, neste contexto todo, a maneira negligente --quando não completamente ignorante-- como transtornos afetivos em geral e depressão em particular são tratados no Brasil contribui para agravar a situação.
Quantas vezes, no auge de suas angústias, um portador desse distúrbio sério e que pode inabilitar já não ouviu:
"Ora, você está apenas deprimido."
Ou:
"Você está exagerando, porque parece tão bem..."
Isso sem falar no problema inexplicável --pelo menos para mim-- que as pessoas têm em relação aos remédios.
Lembro agora de um amigo que toma aspirina todos os dias, vitaminas variadas, não hesita em ingerir antibióticos, sempre se medicou com alopatia, mas já perguntou a um conhecido deprimido: "O seu médico disse quando você vai parar de tomar esses remédios fortes?"
Como assim, forte? "Esses remédios de tarja preta...", disse ele, um homem de trinta e poucos anos, formação universitária, supostamente antenado com o seu tempo...
É por essas e por outras que todo deprimido, em algum momento de suas elucubrações, já desejou ardentemente sofrer de algum tipo de doença mais visível, mais mostrável, mais explicável, mais aceitável --pela incompreensão alheia.
Seria muito mais fácil dizer que não está comendo direito por causa de uma diabetes, que não vai sair de casa numa linda manhã de sol por causa de um reumatismo e outras possibilidades meio absurdas como essas. Mas não é o que ocorre. Quem, da turma dos deprimidos, nunca sentiu uma pontinha de inveja porque ninguém vai perguntar para o diabético quando ele irá parar de se picar para injetar insulina, nem ao portador de hipertensão porque ele continua a tomar, todos os dias, aqueles remédios ''tão fortes''?
(Trecho de: "A Arte de Ser Triste")
![]() |
Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

