Luiz Caversan
Auto-estima demais
Para quem sabe que há muito mais que apenas as guerras do tráfico e as balas perdidas, uns bons dias no Rio de Janeiro renovam a alma. E fazem um bem danado para o corpo. Do recorte generoso das montanhas à água transparente do mar de outono, há que se viver bem.
Mas esta nova passagem pela minha ex-cidade também reuniu, em feliz coincidência, dois momentos de reflexão sobre coisas do coração, elas sempre.
O primeiro foi por intermédio de um livrinho simpático recém lançado pelo psiquiatra e psicanalista Luiz Alberto Py, "Saber Amar" (editora Rocco). O segundo, pelo tocante filme de Noah Baumbach, "A Lula e a Baleia", legítimo representante do cinema norte-americano verdadeiramente inteligente.
Não há que se fazer comparações entre ambos, pois têm formatos, conteúdos e propósitos muito diversos.
Mas tanto o filme quanto o livro resvalam numa questão crucial e determinante em qualquer relacionamento, que é a auto-estima.
Py dedica à auto-estima um dos capítulos do livro em que se propõe a sugerir formas de "gerenciar os sentimentos com inteligência", a partir do pressuposto de que "há apenas um modo de fazer a relação evoluir da paixão ao amor: submetendo os sentimentos ao exame da razão". Para ele, só é possível amar para aquele que tem a auto-estima elevada; ou seja, dá-se apenas aquilo que se tem...
Em seu filme sobre a ruína da união de um casal de intelectuais e os conflitos daí decorrentes, sobretudo com os filhos adolescentes, Baumbach preenche toda a dimensão do homem do casal com o principal elemento desagregador da trama, que é o excesso de auto-estima de um professor medíocre, escritor fracassado, que não tem a menor idéia do tamanho de sua insignificância.
A temperar a trama, uma mulher a um só tempo libertária, generosa e com preceitos morais digamos assim elásticos, uma vez que não pensa duas vezes para procurar parceiros mais interessantes do que o marido, que não presta atenção em nada além do que aquilo que circunda o seu umbigo.
No filme, de diálogos inteligentíssimos e cortantes, o que acaba contando na verdade é a descoberta da vida pelos dois rapazes, o menor deles numa interpretação sensacional do garoto Owen Kline.
A mulher está certa ao transcender a mediocridade do marido? Ele apenas cumpria seu papel, enquanto ela "dava pra todo mundo"?
Bem, há que se ponderar os valores de cada espectador para responder, da mesma forma que será assim que se concluirá por qual "lição" os pais terão passado aos seus filhos.
No livro de Py, finalmente, (que também fala de ciúme, separação, filhos, carinho e respeito mútuos), escolho um dos "toques" dados por ele, para terminar: "É terrível sofrer por amor, mas não há como viver sem correr esse risco."
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

