Pensata

Luiz Caversan

13/05/2006

Dia das mães

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- Eu não tenho...

- Claro que tem. Todo mundo tem. Só se já morreu...

- Eu não tenho, nunca tive e não enche o saco senão te furo.

- Fura nada, tá é com medo de dizer quem é, deve ser uma zinha daquelas lá...

- Olha aqui, se você continuar me zoando eu vou aí e te quebro inteiro, porque essa cola já deixou doidão.

- Tá bem, depois você me conta quem é sua mãe, mas vai passando a cola aí...

- Não passo, nada, enquanto você continuar com essa história de mãe, mãe, mãe... A mais mãe que eu tive foi a Shirley, aquela traveca lá do Arouche. Só. Desde que eu precisava tomar leite quem me dava era ela, ninguém mais. E como traveco não pode ser mãe, eu não tenho mãe e ponto. E ponto final.

- Eu tenho mãe, falô, vive com um bebum num barraco lá perto da represa, não vejo ela faz um tempão. Mas também ver pra quê? Pro cara dela me dar umas porradas para tomar meu dinheiro? Um dia junto grana, compro um ferro e resolvo essa parada pra ela. Se bem que ela não está nem aí, tá sempre bêbada, nem lembra meu nome.

- Bem, melhor então é não ter mãe...

- Já te disse, tudo mundo tem mãe, você é que não sabe quem é a sua.

- Tá bem, melhor então é não saber quem é a mãe do que sentir vontade de matar aquele que nem é seu pai.

- Sai para lá, meu, tá parecendo professor.

- O negócio é o seguinte, vamos deixar de conversa que tem um monte de gente saindo hoje para comemorar o dia das mães, certo? Como eu não tenho mãe e a sua não presta, vamos faturar algum?

- Vambora...

E cada um saiu do seu canto escuro, arma na mão, em direção à porta do restaurante repleto de famílias alegres e felizes.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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