Luiz Caversan
É o fim da picada
Depois de todo o bombardeio noticioso, das informações que mais pareciam balas perdidas, dos sensacionais sensacionalismos e também das análises coerentes, havia decidido não escrever nada sobre a Batalha do Dia das Mães.
Mas o comentário de uma conhecida comoveu.
"A verdade é a seguinte: acabou, è finito, foi-se", disse do alto de seus 80 anos a minha conhecida italiana, mais paulistana do que só, com toda a razão que a violência urbana dos últimos dias lhe deu.
Não há mais nada a dizer nem a fazer.
Acabou-se o que era doce, e o resto é ilusão.
A Alessandra ficou cinco horas presa no porta-mala de um carro no estacionamento ali pertinho, os assaltantes levaram a grana, uns carros para barbarizar no fim de semana da guerra e deixaram, ela e mais outros clientes, presos lá dentro horas. "E eu tinha um monte de reunião", lamentou minha amiga workaholic, emblematizando bem esta cidade que não podia parar mas parou.
E parou na hora certa, pelo menos para quem andava mesmo esperando o mundo dar um tempo para poder descer.
Para o pessoal do PCC, que acha uniforme laranja obviamente mais fashion do que o amarelo, tudo a ver, porque claro que nada a perder há mesmo. E que PCC é esse? Acho que é que nem Comando Vermelho no Rio, qualquer um que sai barbarizando é CV, na hora H todo mundo entra no mesmo barco e vamos nessa que...
E perguntou-me a dentista assustada: "É coisa da política?". Claro que sim, claro que não, disse eu realmente na dúvida se a pergunta era séria e se eu estava entendendo o que está se passando.
Claro que não!
Quem está?
Quem sabe o que fazer?
Nos anos 90, quando São Paulo era o céu e o Rio de Janeiro o inferno, vi vários arrastões em Ipanema. Sabe o que dá para fazer na hora do pega-pra-capar? Nada, nadica de nada. Se tiver que rolar para o seu lado rola e não há o que se possa prever.
Nunca na minha vida meio-centenária de paulistano tinha visto a avenida Paulista sem nenhum carro; nunca. Pois vi na noite que a TV mostrou a imagem aérea daquele deserto de concreto, como se a bomba aquela que só mata gente e deixa os prédios intactos tivesse sido detonada ainda há pouco.
Por isso o comentário da senhorinha minha conhecida é mais do que pertinente: acabou-se qualquer lampejo de esperança, è finito.
O Magnolli lembrou na Folha que Londres nunca parou sob os devastadores bombardeios alemães na II Guerra, mas São Paulo parou, e seus socialites, coitadinhos, tiveram de jogar os canapés comida fora por causa dos rapapés cancelados.
Agora, cancelam-se vidas pela periferia afora na retaliação policial, denuncia o Ferrez com conhecimento de causa do Capão Redondo.
O que se pode esperar depois do fim?
Os que acreditam que por favor disponham de sua fé...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

