Luiz Caversan
Para sermos iguais
Dona Sérgia, ou simplesmente Sérgia, era uma mulher divertida e feliz. Quituteira, como se dizia então, contava piadas, ria e alegrava, a ela mesma e a todos em volta, enquanto cometia coxinhas, empadas, esfihas e quetais. Todos muito bons, deliciosos.
Era casada com um português, seu Pires, a quem se referia como "o Pire"; e eu, pequeno, embora atento mas já então meio surdo, ficava na dúvida se ela falava do marido ou da vasilha de Pirex que empunhava firmemente no afã de enfileirar os salgadinhos para festas, casamentos, batizados...
Falava do Pire e contava piadas como ninguém.
Eu adorava a Sérgia, era amiga/irmã da minha mãe, da casa, daquele ambiente em que, desde sempre, éramos todos iguais.
Por isso tornara-se para mim muito difícil --hoje é mais "fácil", mas não menos indigesto-- entender por qual motivo a tão querida Sérgia era tratada de maneira diferente, digamos menos igual, em outros ambientes que não o nosso, pelo fato de ser uma negra.
Negra daquelas bem negras mesmo; linda, africana, das que fecham os olhos quando riem e soltam o vozeirão.
A Sérgia era, sem dúvida, muito, muito melhor do que os chatos brancos pernósticos e racistas da minha rua, que a tratavam como se ela devesse alguma satisfação a alguém, tivesse que justificar sua cor e pedir licença para ser feliz.
Sérgia incomodava com sua alegria, a qual tínhamos a felicidade de compartilhar.
Lembro-me com saudade da Sérgia, que já se foi há umas duas décadas, ouvindo aqui agora outro vozeirão, de um outro negro feliz, meu querido amigo Wilson Simoninha.
Cantando o emocionante "Tributo a Martin Luther King", canção que foi grande sucesso nos anos 60/70, manifesto contra a desigualdade racial e o preconceito, que eu adorava adorar, por todos os negros queridos, pelos não conhecidos e pelos historicamente oprimidos neste país mulato que se envergonha de ser quem é.
Mas a música de Ronaldo Bôscoli e Wilson Simonal --pai de Simoninha e que além de negro e feliz cometeu a desfaçatez de ficar rico e famoso, tornando-se vítima de acusações várias-- conclamava à luta por um lugar ao sol:
"Sim sou negro de cor
Meu irmão de minha cor
O que te peço é luta sim, luta mais
Que a luta está no fim
Cada negro que for
Mais um negro virá
Para lutar com sangue ou não
Com uma canção também se luta irmão
Ouvir minha voz
Lutar por nós
Luta negra demais, luta negra demais
É lutar pela paz, é lutar pela paz
Luta negra demais
Para sermos iguais
Para sermos iguais"
No paradoxo da "luta pela paz" dos negros e brancos é que se inspiram os que querem ser iguais, batalhando contra todo tipo de preconceitos --os dos pobres, dos pretos, dos incultos, dos doentes, dos desvalidos em geral.
Sem esquecer jamais que para sermos iguais teremos sempre que nos aceitar diferentes que somos.
Tristeza, muita tristeza pela morte, neste sábado 3 de junho, do colunista Antônio Salomão.
Uma das pessoas mais divertidas, sagazes e inteligentes que já viveram em São Paulo.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
