Luiz Caversan
Ignorância e sabedoria
Na semana passada, o tema dessa coluna, ainda uma vez, foi a igualdade. Contei a história de uma querida amiga negra que era vítima do hediondo preconceito que grassava na década de 60, porém já então absolutamente inaceitável, pelo menos para mim e para minha família, composta por familiares mesmo e muitos amigos.
Mas veja você que toda a tecnologia disponível no mundo, todos os avanços conseguidos pela humanidade, o surgimento e a sedimentação de uma consciência segundo a qual somos, sim, iguais até mesmo em nossa pequenez diante do incomensurável universo, ou seja, em pleno século 21 ainda sobrevivem mentalidades turvas, sórdidas, incompreensíveis.
O que mais dizer a não ser isso quanto ao seguinte e-mail que recebi de um leitor (espero que não o seja por muito tempo): "Jamais em toda a minha vida eu ou os meus descendentes seremos ainda que minimamente 'iguais' a africanos! Se você quiser ser 'igual' a eles, opção e problema seu! No mais, como sempre, vindo de seus "textos", tudo não passa baboseira!"
O cidadão em questão, que se mantém anônimo, mas cujo endereço eletrônico é pofboccato@yahoo.com.br (mande um alô pra ele...) é um crítico contumaz de meus textos. Ok, sem problema, se ele não gosta do que escrevo e se dá ao trabalho de mandar mensagens me esculhambando (às vezes parte para a baixaria mais insultante, mas esperar o quê, não é mesmo?). No entanto, agora o problema é outro: essa sua declaração configura, além de um acinte à inteligência e uma ofensa a todas as pessoas de bem que propugnam a convivência pacífica entre as raças, um crime previsto na Constituição.
Está lá no Título II, Capítulo I, Artigo 5º, Inciso 42: "Prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei."
Portanto, senhor pofboccato@yahoo.com.br, muito cuidado ao externar sua pequenez e reacionarismo. Se este fosse de outra ordem, se o senhor quisesse difundir sua provável admiração por Adolf Hitler, por exemplo, tudo bem. Acontece que a questão aqui é legal.
É pouco provável, mas vai que algum promotor, juiz ou delegado leia sua "simpática" declaração contra nossos irmãozinhos negros e resolva fazer valer a lei?
Bem, aí quem sabe o senhor passasse a ter real motivo para não gostar mesmo de pretos e pobres, daqueles que são fartamente encontrados em nossa população carcerária...
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Já que o assunto é preconceito, limitação de entendimento da realidade e falta de sensibilidade, vamos a um contraponto incrivelmente emocionante. Há duas semanas morreu a integrante mais nova da Família Shürmann, aqueles bravos navegadores que, tendo a Ilha Bela como base, partiram para aventuras em torno do mundo e fizeram história, passando 10 anos no mar. Pois bem, a jovem Kat, filha adotiva do casal Vilfredo e Heloisa e irmãzinha caçula de Wilhein, David e Pierre, foi adotada na Nova Zelândia, sabidamente portadora do vírus HIV _esse vírus, senhor pofboccato@yahoo.com.br, não foi gerado pelos homossexuais não, viu; surgiu, como ficou provado recentemente, entre os chipanzés de Camarões.
Bem, a luta pela vida da pequena Kat, que se foi aos 13 anos, é um exemplo para todos nós. A nota que a família distribuiu quando de sua morte é tocante:
O novo rumo da nossa pequena tripulante...
Pequena apenas no jeito franzino e delicado... Quem a conheceu sabe de sua grandeza e personalidade de atitudes firmes e decididas... Um exemplo de perseverança e de amor à vida.
Desde que nasceu, Kat lutava bravamente para viver e aproveitar intensamente cada instante junto à Família, amigos e à natureza, a qual tanto amava e defendia.
Não era a primeira vez que, rapidamente, um pequeno resfriado transformava-se em um princípio de pneumonia e debilitava a nossa mais jovem tripulante. Mas repentinamente, a vontade de Kat, feito uma forte rajada de vento, enchia o seu espírito de vida e tudo não passava de um susto. Mas desta vez, não deu...
Muitos não sabem, mas Kat era soropositiva desde que nasceu. A adotamos ainda pequena, na Nova Zelândia sabendo de sua condição. Sua mãe já havia partido e o pai viria a nos deixar anos depois.
Claro, sabíamos que seria muito difícil. Kat era muito pequena, o seu estado de saúde sempre foi preocupante. Kat já havia nascido com esse desafio de saúde, bastante debilitada. Quando a conhecemos, exigia sérios cuidados. Mas não poderíamos deixar de dar uma chance àquele anjinho de lutar pela vida. Ela queria viver! Estava em seu olhar!
E foi a decisão mais importante que tomamos na vida!
Com o passar dos anos e a evolução da sua saúde, da medicina e, acima de tudo, da sua vontade, tínhamos a esperança de tê-la entre nós por muito e muito tempo. Mas ontem, 29 de maio, ela partiu...
Acreditem, foram os anos mais felizes de nossas vidas... Kat sempre foi muito especial e deixou mais exemplos e ensinamentos do que muitos que viveram décadas...
São lições que marcarão as nossas vidas e de todos aqueles que com ela conviveram. Kat sempre lutou bravamente contra a doença, sempre debateu a questão do preconceito, a importância do amor e da Família.
A luta de uma criança contra essa doença é inglória! Noites mal dormidas, remédios, mal-estar, hospitais, entre outros fatores, são capazes de tirar a alegria mesmo desses pequeninos cheios de luz e energia.
Mas nada é pior do que o preconceito e a falta de amor! Ela sempre pedia para as pessoas não julgarem as crianças que tinham qualquer limitação, porque ela sempre foi descriminada pelo seu tamanho e forma de caminhar. Mesmo assim, nos últimos dias, Kat manifestava forte vontade de falar da sua luta contra o vírus com os amigos da escola... Se mostrava indignada com a possibilidade de ser discriminada por isso... Estávamos debatendo essa possibilidade.... Ela queria que as pessoas entendessem que somos todos são iguais. Kat queria quebrar esse preconceito. Não houve tempo...
Por isso, decidimos escrever este comunicado. Assim como a chegada de Kat encheu nossas vidas de alegria, dignidade e respeito ao próximo, que a sua partida possa conscientizar a todos da importância do amor, do carinho e da compreensão na vida daqueles que sofrem de algum problema de saúde, não apenas os soropositivos.
Kat foi e sempre será muito amada, viveu intensamente cada segundo de sua vida, conheceu diferentes lugares em todo o mundo e sempre contou com apoio da sua Família. Por isso, temos a convicção de que partiu em paz, cheia de amor e grandes lembranças.
Tenham certeza, fizemos tudo que estava ao nosso alcance.
Infelizmente, essa não é a realidade da maioria das crianças que sofrem de alguma condição de saúde e que convivem com o preconceito, a falta de recursos e de calor humano... O desejo de Kat era mudar tudo isso... Como o nosso era tê-la para sempre!
Nos despedimos da nossa marinheira Kat ontem, em uma cerimônia intima e familiar. Suas cinzas serão levadas para Nova Zelândia, onde ela descansará ao lado de Robert e Jeanne, seus pais biológicos, cumprindo assim, uma promessa que selamos com eles. No próximo sábado, às 17h30 na Capela São João, em Ilhabela-SP, faremos uma homenagem à vida dessa grande menina.
Gostaríamos de agradecer todas as equipes médicas do mundo inteiro que sempre lutaram pela vida da Kat, em especial, a equipe que estava conosco quando ela partiu.
"Em homenagem ao nosso Anjinho, que agora navega nas nuvens do céu"
Família Shürmann
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
