Pensata

Luiz Caversan

17/06/2006

Tristeza aos pedaços

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O Airbus da TAM taxiava no aeroporto de Brasília rumo à cabeceira da pista, de onde partiria para Belém, norte do país, Amazônia de todos nós.

Ao observar o sempre encantador horizonte do Planalto Central, não houve como deixar de notar os dois pneus, partes de uma mesma peça, caídos ao lado da faixa de asfalto.

Estranho, pensei, que ninguém tivesse retirado aquilo dali, vestígios de um problema que aparentemente ocorrera há muito tempo.

Mas, de repente, nossa aeronave começou a fazer a curva, voltando ao ponto de onde partira. Em seguida, o aviso do piloto: estávamos retornando porque um avião da Varig havia acabado de aterrissar e, neste ato, perdido uma parte do trem de pouso.

O aviso lacônico, significando atraso num vôo já cansativo, seria apenas um contratempo não fosse o acidente tão próximo e recente (ainda bem que sem vítimas) e não tivesse o piloto da TAM ressaltado, com todas as letras e com tom de voz caprichado, que o problema ocorrera num avião "da VARIG".

Ao longo das explicações que se seguiram (uma hora de espera, inspeção na pista etc.), o nome da desmantelada companhia foi citado mais quatro vezes, como se houvesse um certo prazer em se dizer que era a velha e boa Varig que se desmanchava a olhos visto.

Sim, a Varig de tantas histórias, muitas delas contadas por profissionais de outras companhias, como a própria TAM, e antes pertencentes às já devidamente falidas Vasp ou Transbrasil, quando a Varig era o máximo e as "outras" eram apenas outras, o que fazia com que seus trabalhadores fossem tratados com recorrente desdém pelo pessoal da "nossa Varig".

Agora era,portanto, a hora da vingança?

Naqueles 60 minutos de espera no aeroporto de Brasília, muitas lembranças foram reavivadas. O primeiro vôo internacional em 1980, quando a passagem da Varig era quase que um documento, encadernado com esmero. Quando um vôo intercontinental a bordo da Varig era luxo só, já que a companhia até pagava multa para fornecer um serviço de bordo inigualável, acima do padrão permitido pela agência internacional que regulava o setor. Enfim, viajar pela Varig era um evento único, do cheirinho do avião aos vinhos e petiscos servidos a bordo, apesar do ar blasé dos comissários...

Agora ali estava ela, quer dizer, lá estava o pneu ao lado da pista, como que a atestar o desmanche de uma era, o fim de um ciclo de ostentação e luxo que nunca mais voltará. Os tapetes vermelhos da TAM nunca alcançarão o glamour de anos e anos de principado da "nossa" companhia aérea. Nem é mais o caso, claro, porque hoje o que importa de fato é pontualidade e segurança, o que a atual líder do mercado tem oferecido, ao menos razoavelmente.

Mas não deixou de ser entristecedor ver aqueles pedaços de aeronave de um avião de uma companhia aérea de um país que não existe mais; nada disso existe mais. Os fantásticos DC-10, a charmosa Varig e o Brasil que voava de primeira classe rumo ao futuro do gigante que um dia acordaria...

Acordei com o avião pousando em Belém, onde permaneceria poucas horas a trabalho, tempo suficiente para refletir sobre a decadência dos mitos, o fim das ostentações depredadoras e sobre a qualidade do material do trem de pouso do avião que vou pegar daqui a pouco para retornar a São Paulo.

Bem, não será de Varig.

Uma sorte, mas também uma pena...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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