Luiz Caversan
Viva o gordo!
Vamos esclarecer uma coisa desde já: Ronaldo é o máximo, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, é bacana, simpático, meteu-se numa encrenca com aquela moça oportunista da boca grande, mas saiu-se apenas levemente chamuscado, foi eleito o melhor do mundo, suportou todo tipo de pressão, foi acusado de pivô da derrota do Brasil na França, ficou rico, quer dizer, milionário, tem um lado suburbano inextinguível, largou o aparelho dental antes da hora etc., etc., etc...
Mas sabe qual é o seu maior pecado?
Estar "gordo".
Fiquei chocado nos dois primeiros jogos do Brasil ao ver o prazer, o sadismo, o deboche dos caros patriotas ao encher a boca para xingar o cara: "Sai goooooordo".
Como se gordo fosse xingamento, como se estar com a silhueta comprometida tivesse se tornado um pecado mortal. Quer dizer, é, sim, um pecado mortal, certo meninas?
A torcida do brasileiro contra o Ronaldo nos dois primeiros jogos do Brasil foi uma vergonha, uma amostra pronta e acabada da truculência a serviço da ignorância. Ou, como diria meu amigo grafiteiro J, com certa condescendência, muito conceito para pouca noção.
Porque a crítica não era pertinente do ponto de vista atlético, ou seja, partindo do fato de que um jogador de futebol deve estar em forma para jogar bem. Não. Se o Ronaldo estivesse em forma e jogasse mal, tudo bem. Mas gordo? Ah, gordo não, determina a ditadura estética que solapa o bom senso. Se é que se pode falar de bom senso quando se trata de futebol, seleção, Copa do Mundo.
Mas o fato é que Ronaldo tornou-se alvo porque gordo, e os gordos, mesmo quando não tão gordos, são sempre alvo. De chacota, de apelido, de desdém, de discriminação.
Ronaldo significou, emblematizou, nesta Copa, todo o estigma carregado pelos gordos do mundo, por aqueles que "se recusam" a cumprir os ditames obrigatórios da silhueta perfeita.
Mesmo com o cara jogando bem contra o Japão, fazendo dois gols e mandando um monte de bolas perigosas, não importa: ainda há quem o torne proibitivo porque gordo.
A paixão do brasileiro é altamente suspeita nessas horas, deixa de lado a idolatria de poucos minutos atrás para assumir o preconceito que extravasa transbordante, porque somos quase pretos, pobres e precisamos impressionar sempre.
Quando chegamos lá, fama e sucesso, há que se encontrar algo para justificar esse subdesenvolvimento cultural atávico.
Ai, que bom, o Ronaldo está gordo! Sai daí e deixa entrar o Robinho, que também era pobre, é preto, mas permanece magrinho...
Nananinanão.
O Brasil pode perder a Copa, Ronaldo pode perder gols e tudo pode dar errado.
Não importa.
Viva o gordo!
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

