Luiz Caversan
Brasil, sil, sil!
Neste momento em que você se dá ao trabalho de ligar o computador, entrar na Folha Online, clicar no link para a coluna e ler essas modestas palavras que se seguem, já poderemos:
1 - estar amargando mais uma derrota para a França, que terá se tornado nosso algoz histórico, uma espécie de guilhotina futebolística na nossa Maria Antonieta patriótica.
2 - estar comemorando loucamente e prontos para encarar o próximo jogo, semifinais de mais um campeonato que obviamente iremos ganhar, porque ser hexa é o destino dessa pátria de chuteira.
3 - de saco cheio de tanto futebol.
4 - achando engraçado como o mundo se transforma e se torna até mais palatável nos tempos em que as pendengas, birras, disputas e desavenças se transferem para as quatro linhas do gramado.
Qualquer tipo de evento que mobilize multidões e paixões são emblemáticos, reveladores dos limites e imensidões humanos. Que prazer poder presenciar iranianos num campo de futebol obedecendo regras internacionais, muito melhor do que vê-los em bravatas atômicas.
Que interessante ver a maior potência do mundo perdendo sua arrogância histórica para sucumbir ao seu futebolzinho medíocre; bem, o que esperar desses americanos, que teimam em jogar footbal com as mãos e bater um soccer por aí?
Mas, e nós, brasileiro, que tal? Raça estranha, essa, que pára suas cidades e suas vidas para morrer com seus craques. Craques aliás que não titubeiam em detonar, como foi o caso do "gordo" Ronaldo, crucificado e esculhambado até voltar a fazer gols e, portanto, retornar ao altar dos deuses necessários (leia em "Viva o Gordo!").
Perdemos? Ganhamos?
Bem, cada um saberá administrar sua glória ou seu fracasso, mas que fique claro que a frustração virá de qualquer modo: se perdermos, porque perdemos; se ganharmos, porque, passada a euforia da vitória, a vida terá que voltar ao seu ritmo de sempre, pouco ou quase nada havendo para usufruir do que uma estrela a mais no uniforme da seleção e um outro título esportivo para exibir.
Em ambos os casos, que chatice, teremos de novo que voltar a falar de fome, analfabetismo, violência, desemprego, desamores, frustrações diversas com essa vida que, ainda bem, diga-se, fica em suspenso em todos os 90 minutos em que morremos pelo Brasil.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
