Pensata

Luiz Caversan

08/07/2006

Os heróis que não tivemos

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Nós nos decepcionamos quando não fazem o que achamos que deviam fazer. Ficamos frustrados com nossas próprias expectativas não realizadas, e tendemos sempre a culpar "o outro" por aquilo que desejamos ardentemente, muitas vezes sem base na realidade.

Por isso precisamos de heróis, aqueles seres superiores que nos confortam com suas realizações e seus feitos; os que correspondem ao desejo que nele projetamos.

Por isso essa ressaca doída por conta do fiasco na Copa, dos heróis de pés de barro, dos homenzinhos mesquinhos e egoístas que alçamos, irresponsavelmente, ao posto de salvadores da pátria. Pátria de chuteiras, mas pátria.

A nosso favor, porém, há o patriotismo, o amor pelo país e o orgulho de defender suas cores. É meio ridículo, eu sei, porque a CBF é pouco menos que uma quadrilha e um time de futebol como o do Brasil é movido por interesses meramente financeiros, não mais por espírito esportivo ou desejo de corresponder ao que se espera de quem representa um país.

Esses momentos em que caímos da extrema euforia para a grande frustração são, entretanto, ótimos para reflexões, reflexões essas que acabam transcendendo o fato em si (no caso, comezinho: o futebol) e podemos olhar a vida de maneira mais abrangente.

Minha querida amiga e mentora espiritual de tantos, a monja budista Coen, é uma daquelas pessoas raras que conseguem ver o universo na gota d'água. E não foi diferente neste no final triste e decepcionante da participação do Brasil nesse evento globalizado e envolvente, que é a Copa do Mundo.

Ela escreveu um belo texto a respeito, que eu compartilho com você agora:

"Para onde voltar quando o mundo é minha casa? Há volta para brasileiros que já são internacionais?
Estamos sempre indo, indo, tendo chegado e tendo ido.
Onde estamos é nosso lar.
A casa comum, o planeta Terra.
E como essa visão modifica o patriotismo, que só aparece atualmente nos jogos de futebol.
Que pátria é essa para a qual não se retorna?
A Terra una já não mais se separa.
Jogadores internacionais se reconhecem iguais.
Perder uma Copa não é tão triste para eles.
É triste para nós.
Triste para aqueles que vestiram camisas verdes e amarelas, brancas e azuis.
Esperança.
De lucro, de ganho, de vitória.
Resultado triste e quieto de quem se aquietara demais.
Esperando bolas que chegassem magicamente aos pés, sem ir atrás.
Assim não dá.
Mas não são apenas os jogares e o técnico os responsáveis. Inúmeros fatores, visíveis e invisíveis, fatores que podem ser comentados e os que ficam guardados em segredos secretamente protegidos dos ouvidos das multidões.
Como no futebol é na vida. Uma vez jogada a bola não podemos apagar a jogada, boa ou má.
Energia vital, onde foi parar? França, que em japonês se escreve usando o caracter de Buda, brilhou iluminada por um líder reconhecido e respeitado por todos. Últimas partidas de futebol antes da aposentadoria. Nada a perder.
Brilha, reluz, inspira.
Líderes precisam ser respeitados, amados, elevados.
Só assim os times ganham. Times com muitos líderes não jogam.
Líder que lidera com apoio de seus pares e respeito de seus competidores.
Precisamos aprender a respeitar e confiar em nossos líderes.
Parreira, por que tirou o quadrado de ouro? Tanta falação!
É preciso confiar e fortificar os que estão no comando.
Juntos, todos juntos, somos invencíveis.
Divididos, duvidando, perdemos todos juntos.
O que mais aprendemos?
Que perder é triste.
Que por melhor que sejamos é preciso correr, brincar, ter alegria de viver, fazer o melhor de si em cada instante, cooperar, ser simples, humilde, como iniciante se entregar ao jogo, à vida, à verdade.
Não esmorecer frente aos conhecimentos de bastidores que desestimulam.
Lembrar que a vitória é uma espada, como diz Dunga, sobre a qual não se pode sentar.
Espada que nos corta.
É preciso continuar, treinar, sem cessar. Prática constante do Caminho.
Assim são os Budas.
Caem sete vezes e se levantam oito.
Assim é o Caminho, a Vida, a Verdade comum a todos nós.
Ah! Se os jovens tivessem jogado como quem joga pela primeira vez numa Copa do Mundo.
Ah! Se pudéssemos viver como quem vive pela primeira vez uma vida humana e cada instante sagrado.
Ainda é tempo de acordar, despertar."

Monja Coen

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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