Pensata

Luiz Caversan

29/07/2006

Mãe não deveria chorar a morte do filho

Publicidade

Não há nada mais comovente e ao mesmo tempo revoltante do que constatar a dor da perda de um filho no fundo dos olhos de uma mãe.

Alguém já disse que deveria ser proibido, por decreto celeste, um filho ou filha morrer antes do pai ou mãe. Contraria a lei natural das coisas e subverte a pulsão pela vida que há em todos e qualquer um.

Um dia, antes da paternidade, cheguei a achar meio exagerado o verso do Chico Buarque segundo o qual "a saudade é arrumar o quarto/ do filho que já morreu".

Não, não é: a saudade do filho que já morreu é a dor de todas as dores.

Ponto.

Observei muito esses dias o olhar de uma amiga recente, a quem os céus impingiram essa dor. Ela traz lá no fundo de seus olhos vivazes e radiantes um brilho opaco, chama difusa de uma pequena vida que se extinguiu de sua existência. E a dor transborda e afoga e sufoca quem está ao seu alcance.

Ela é uma lutadora, um exemplo, na verdade, porque teve a pior das experiências: viu a vida de seu filho ir-se não de uma vez, mas aos poucos, numa luta inglória contra um tumor cerebral causador de inúmeras seqüelas, que, enquanto durou, tornou mãe e filho pessoas especiais.

Agora, passados poucos anos, essa mãe converteu-se numa referência de luta pelo direito e pela dignidade dessas pessoas especiais. Horas, dias, meses de enfermarias, clínicas, UTIs, médicos, enfermeiras, toda sorte de gente do bem e do mal fizeram parte de uma martírio, que culminou com a partida do pequeno, mas não encerrou o sofrimento de quem o gerou e o carregou e o apoiou em seu apego à vida.

Ela conta sua história sem mágoas exasperantes nem impõe ódios ou amargores que cheguem minimamente perto da angústia que deveras sente, apesar de referir-se com razão à injustiça de que evidentemente foi vítima e à brutalidade como o filho lhe foi tolhido.

Surpreendentemente ela exibe uma exemplar e admirável força para ir em frente, ser, poder, compensar. E com certeza irá, será e poderá muitas coisas, todas aquelas que exigirem a determinação de quem não se entregou à desgraça da perda do filho e, sim, servirá de exemplo para muitos dos que forem alvo desse absurdo revoltante.

E só quem prestar muita atenção perceberá lá no fundo dos seus belos olhos, a dor, aquela, maior de todas.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca