Luiz Caversan
Antes mal acompanhado
Agora está mais do que provado: antes mal acompanhado do que só.
Eis que um estudo realizado na Dinamarca demonstra que as pessoas que vivem sozinhas têm duas vezes mais probabilidade de desenvolver problemas cardíacos do que as que se encontram acompanhadas.
O universo pesquisado engloba nada menos que 138 mil seres desse difícil gênero, que ao mesmo tempo é gregário e excludente, atrai e repele, quer mas não quer e tanto faz que acaba na mais completa solidão.
Foram analisadas as vidas de pessoas com idades entre 30 e 69 anos, ou seja, aquela vasta faixa etária em que a solidão atua em curva ascendente.
Quer dizer, quanto mais a idade avança, mais a o estar só torna-se realidade.
O que, agora se confirma, faz mal à saúde: idade mais solidão igual a ricos para o coração.
Uma rima que infelizmente não significa uma solução, pelo menos em termos de mundo urbano contemporâneo, no qual, para muitos, a solidão é um carma ou tornou-se uma escape para inadequações várias, da falta de paciência para as pessoas até aquela necessidade de "virar ostra" que muitos de nós sentimos de vez em quando.
Haverá alguém de argumentar que, dependendo da companhia, um infarto do miocárdio é mais solução do que problema. Mas isso é exceção que confirma a regra segundo a qual o ombro amigo será sempre uma alternativa saúde para quem quer passar por essa vida minimamente feliz.
Luisel, 22 anos, queria ser modelo. Batalhou por isso desde que, ao sair da adolescência, viu-se esbelta, alta e com jeito para a coisa. E dedicou-se à coisa com afinco: ensaios, leituras, coleta de informações sobre o maravilhoso mundo da moda e de seus ícones. Sobretudo, teve cuidado com a silhueta.
Cuidado exagerado com a silhueta.
Principalmente quando surgiu a grande chance de participar do maior acontecimento da moda de seu país. Aí sim levou a coisa a sério.
A sério demais: Luisel morreu na passarela, dias atrás, durante um desfile na Semana de Moda de Montevidéu, aqui no vizinho Uruguai.
Luisel teve uma parada cardio-respiratória e morreu em plena passarela.
Segundo declarou o pai de Luisel, a moça não comia nada havia dias...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
