Pensata

Luiz Caversan

02/09/2006

O homem que elas adoram amar

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Nem todas as mulheres amam Chico Buarque de Hollanda; apenas as normais.

Isso é desde sempre. Lembro-me ainda bem jovem ter visto a Hebe Camargo já então nem tão jovem quase agarrar o Chico, este também jovem, em seu programa na TV Record. "Ele não é uma gracinha?", sentenciou, para sempre, a loira, perpetuando a adoração pelo sorriso e pelos olhos do moço.

Era então tempos de "A Banda", e de lá para cá a coisa só evoluiu no sentido da paixão, da idolatria, da insensatez que os amores impossíveis impõem.

Ah, esses amores impossíveis que nos marcam para sempre...

Aqueles que querem ficar no seu corpo como tatuagem, na vertigem de uma Ana de Amsterdã, Bárbara de tudo, instalando-se como posseiro no dentro do coração, sei lá...

Muitas bandas passaram, e as moças continuam morrendo por ele.

Dias atrás estreou o novo show do cara. "Ele é tudo", disse a aquela famosa. "Tem muita ruga", decretou a bicha desalmada. "É a Geni ao contrário, todas querem dar pra ele", conferiu o senhor admirado.

Magrinho, sério, lá no meio daquele palco genialmente preparado pela dupla Maneco Quinderé (luz) e Helio Eichenbauer (cenário), o cabelinho bem penteado de eterno bom moço, ele deu o que a platéia queria, fina flor de um repertório brasileiro como o quê, ponteado de canções novas, mas tudo engendrado numa seqüência tal que as pessoas mal respiravam.

Quase que um recital, um concerto, de tão comportado e "família". Mas os ícones desse deus da música brasileira, cujo olimpo inalcançável é almejado por todas e invejado por quase todos, estavam ali presentes: o amor que deu, o que não deu, a alegria de viver, a tristeza de estar aqui e agora sem você meu bem, a vida que foi e que nunca será, tendo sido sempre.

Um dos momentos mais lindos do show linka cenário, luz e canção.

Uma escultura à la Calder, um móbile pendurado no teto, reproduz o contorno sensual das colinas cariocas avistadas desde a zona sul, a partir da praia. Quando soam os primeiros acordes de "Subúrbio", a escultura começa a girar lentamente, oferecendo ao público a visão "do outro lado", ou seja, desde a zona norte, a sofrida, conflagrada e marginalizada zona norte do Rio de Janeiro, da qual o "Chico social" faz uma linda e oportuna radiografia e à qual rende simbólica homenagem.

Veja que demais (aliás, o Chico é demais...):

"Lá não tem brisa
Não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento
Lá não figura no mapa
No avesso da montanha, é labirinto
É contra-senha, é cara a tapa
Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Olaria
Fala, Acari, Vigário Geral
Fala, Piedade
Casas sem cor
Ruas de pó, cidade
Que não se pinta
Que é sem vaidade

Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Desbanca a outra
A tal que abusa
De ser tão maravilhosa

Lá não tem moças douradas
Expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas
Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Pavuna
Fala, Inhaúma
Cordovil, Pilares
Espalha a tua voz
Nos arredores
Carrega a tua cruz
E os teus tambores

Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Fala no pé
Dá uma idéia
Naquela que te sombreia

Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda

Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Encantado, Bangu
Fala, Realengo...

Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Meriti, Nova Iguaçu
Fala, Paciência..."

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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