Luiz Caversan
A invasão dos homens-placa
Eles começaram a chegar há pouco tempo e estão em todos os lugares, principalmente nas esquinas e nos corredores de tráfego das grandes cidades.
Deveriam ter alguma utilidade, mas não têm nenhuma, apenas fazem figuração, como que simbolizando o eleitor anônimo, aquele que vota mas não sabe em quem, elege, mas nunca lembra o nome, e portanto faz figuração a cada nova eleição.
Eles são os homens-placa, ou as mulheres-placa ou ainda os adolescentes-placa, e só existem porque foi essa a maneira que os candidatos desta eleição encontraram para driblar a legislação mais restritiva quanto à propaganda eleitoral.
A lei, grosso modo, diz que não se pode afixar placas ou faixas de propaganda eleitoral na via pública. Literalmente, elas não podem ser fixas, estáticas. Qual a solução? Ora, mantê-las móveis...
Mas para que ficar andando pra lá e pra cá com a placa se as pessoas, na rua, vão mesmo passar por ela? No entanto, a lei não deixa que elas fiquem fixas, certo? Então, dá-se um jeito: mantém-se a placa ou faixa estática porém móvel, apoiada num homem ou numa mulher, que no final das contas acaba fazendo papel de poste ou parede.
Aqui no Rio, como em São Paulo, não é diferente. Desde o feriado vejo todos os dias a placa 2m x 2m, foto enorme de um candidato conservador, de terno e gravata e sorriso falso, com uma figurinha escondida atrás, fazendo de conta que está segurando a dita cuja. Mas não está, porque a mocinha fica sentada numa cadeira de plástico, na qual a placa está apoiada. Uma existiria perfeitamente sem a presença da outra...
Pura hipocrisia, claro, mas o que numa eleição não é, a partir do momento em que o voto é obrigatório?
Bem, essa é outra história, mas fiquei curioso para saber o que aquela pessoa ali pensava a respeito de tarefa tão inútil quanto dispensável, não fosse a tal lei.
Aqui vai, então, em primeira mão, uma entrevista exclusiva com a mulher-placa que fica na esquina das ruas General Venâncio Flores com Dias Ferreira, no Leblon, zona Sul do Rio:
Pergunta: Oi, você é uma mulher-placa?
Resposta: Como?
Pergunta: Você ganha para segurar a placa?
Resposta: Sim.
Pergunta: Quanto?
Resposta: Dez real por dia.
Pergunta: Só para fazer de conta que segura a placa?
Resposta: É isso aí...
Pergunta: O que você acha do seu trabalho?
Resposta: Livra uma graninha, né? Mas nem precisava de ninguém, porque a placa podia ficar aqui sozinha, na boa.
Pergunta: E por que não fica?
Resposta: Porque é proibido, o homem disse que é pra ficar ligado vendo se vem fiscal. Se vier, eu tenho que pegar a placa e dar uma voltinha.
Pergunta: E a cadeira?
Resposta: A cadeira fica, porque eu volto logo. Quer dizer, acho que volto, porque até agora não apareceu fiscal nenhum...
Pergunta: E você está ligada?
Resposta: Mais ou menos, porque ficar o tempo todo sentada na cadeira atrás da placa dá um sono...
Pergunta: E o candidato da placa, é bom?
Resposta: Nunca vi mais gordo. (Olhando bem para a placa) Ele é bonitão, né? Roupa cara, esse óculos bacana...
Pergunta: Você vai votar nele?
Resposta: É ruim, heim? Vou votar no cara que atende a gente do meu bairro, lá na Baixada.
Pergunta: Como assim, atende?
Resposta: Ah, ele dá camiseta sem nada escrito, porque aí pode; deu dentadura para minha avó e ficou de arranjar um trampo para o meu pai.
Pergunta: E a placa?
Resposta: Que é que tem?
Pergunta: Você não faz propaganda do cara da placa?
Resposta: Eu não, dez real é pra ficar tomando conta da placa, e já tá bom demais...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

