Pensata

Luiz Caversan

07/10/2006

Pés muito sujos

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O que mais a chamava a atenção era os pés.

Sujos, muito sujos.

A cena toda estava fora da rotina do pedaço por onde sou obrigado a passar todos os dias.

Em baixo da marquise daquela estação do metrô instalou-se desde sempre uma turma de mendigos que assedia os motoristas no cruzamento. E onde normalmente encontra-se seu "dormitório", agora havia um cercadinho feito pelos seguranças do metrô, meio que protegendo um cadáver coberto por plástico preto. Tão preto quanto a sujeira dos pés que se projetavam para fora daquele pacote sinistro.

São Paulo é uma cidade farta de moradores de rua, e dentre esses há várias categorias: os esquizofrênicos que não vivem em nenhum outro lugar a não ser dentro de suas próprias e inescrutáveis mentes, outros doentes mentais que não conseguem estabelecer nenhum contato "razoável" com a sociedade, os desacorçoados de uma vida que de tão ingrata acabou lhes impondo a rua como o único local em que possam permanecer. E os bebuns.

Os meus vizinhos são bebuns, uma meia dúzia, todos homens, daqueles que um dia tiveram uma vida que lhes pregou alguma peça e hoje são apenas andrajos que se movimentam entre os carros e atrapalham o trânsito das pessoas na calçada.

O que morreu foi o "Zé". Apenas, Zé, informam seus companheiros de infortúnio. De onde veio, tinha família, documentos, estava doente?

Ninguém sabe...

Morreu de quê?

De pinga, diz um deles.

Não foi de pinga não.

Pode até ter sido, mas não foi.

Foi de esquina, de frio, de fome, de sujeira, de tristeza, de náusea, de solidão, de saudades, de vergonha, de desespero, de mágoa, de cansaço e de tudo o mais que certamente acomete um ser humano que chega àquele limite, de ter na pinga o único e desesperado conforto para as noites intermináveis, frias e nojentas sob uma marquise.

O homem morreu aqui pertinho, embaixo da marquise do metrô, ao lado do minhocão, onde certamente morrerão outros, aquele da bengala, talvez o barbudo, quem sabe o baixinho de cabelos brancos...quem se importa?

Será apenas outro Zé, daqueles que jamais constarão das pesquisas de intenção de voto.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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