Pensata

Luiz Caversan

14/10/2006

O amigo-divã

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FH fica aflito sempre que chega perto dela, e isso ocorre em encontros "casuais" nos intervalos do curso que estão fazendo, nas freqüentes idas ao cinema ou ao barzinho ou por intermédio de e-mails imensos.

Ela pensa como eu penso, sonha como eu sonho, aspira a grandes momentos como eu --divaga FH ao concluir, como se outra conclusão não houvesse, que aquela é, sim, a mulher da sua vida.

Apesar de ser um belo "balzaquiano", FH sente-se adolescente nessa sua paixão que leva dentro do peito, sem que ninguém saiba.

Nem ela.

Ou melhor, não sabia, e foi aí que a coisa complicou para FH.
Foi aí que ele descobriu que era nada mais nada menos que apenas um amigo-divã.

Amigo-divã é aquele que ouve nossas queixas, conhece nossas angústias, nossos sonhos, nossas ambições, nossas fantasias, sem direito a cobrar consulta e principalmente sem direito a interagir. Ou seja, com quem se fala de amor sem amar, com quem se fala de sexo sem fazê-lo, com quem vive-se sem compartilhar.

FH descobriu que era o amigo-divã quando resolveu se declarar, em meio aos lamentos dela sobre seu namoro recém-terminado, no carro, ao som de Norah Jones.

O momento era propício, mas a resposta foi desconcertante. Não houve um sonoro não, um não quero, um não gosto de você.

O que houve na verdade foi uma pergunta: "Você não vai ficar chateado, vai?", disse ela, partindo --sedutora e carinhosa como sempre-- para outro assunto e fazendo com que FH deixasse o dito pelo não dito e rumasse para a enrascada em que se encontra agora.

A paixão ainda corrói seu peito, as conversas com ela são cada vez mais interessantes, os gostos cada vez mais semelhantes, os caminhos cada vez mais paralelos.

Mas se tudo parece tão certo, se tudo parece tão óbvio, se todos acham que formamos um lindo casal, se eu não sou nenhum monstro do lago Ness, se eu tinha certeza de que a atração era verdadeiramente mútua, o que aconteceu? Onde errei?

Na dúvida sobre qual decisão tomar --se chuta o pau da barraca e nunca mais fala com ela ou se se declara novamente e exige uma resposta direta-- uma coisa para FH é certa: amigo-divã, nunca mais...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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