Luiz Caversan
O futuro mora ao lado
Pelo menos uma vez ao dia eu dou uma olhadinha. E eles estão sempre lá, como que esperando. Sim, esperando.
Da janela de trás do apartamento dá para avistar muito bem os dois casarões e o quintal amplo e bem cuidado, com o caramanchão no meio. Quando o sol é um pouco mais forte, eles ficam à sombra do caramanchão. Os mais fraquinhos e debilitados ficam sempre à sombra.
Outros, mais animados, andam pra lá e pra cá, num passo incerto, mas ainda assim digno, de quem quer ir e vir.
A maioria, no entanto, desistiu ou não consegue ir para mais lugar nenhum. Simplesmente já fez tudo o que podia fazer e ali aguarda.
São idosos, homens e mulheres, abrigados numa boa clínica "de repouso" do meu bairro. São muito bem tratados, ontem mesmo vi a dedicação e o carinho com que a enfermeira ajeitava a toalhinha e enxugava a saliva da senhorinha imobilizada provavelmente pelo Alzheimer.
Nunca flagrei uma atendente tratando mal nenhum deles.
No começo da semana, um susto. Estou eu lá na minha observação diária do que me espera no futuro quando uma enfermeira se agita diante de uma velhinha, que aparentemente parara de respirar. Corre-corre, gente que vem e vai, será que ela morreu?
A mulher foi levada para outra ala da clínica na cadeira de rodas e talvez tenha mesmo morrido.
É isso, afinal, que eles esperam ali naquela casa. Com dignidade, bem cuidados, asseio e carinho, mas é isso que aguardam.
Nos fins de semana e dias festivos (Pais, Mães, Natal etc.) há festinha. Em junho há bandeirolas e chapéus de palha. Alguns se divertem, outros nem sequer percebem o que ocorre à volta. Num destes dias, vi bem a moça que conversava com a mãe ou avó num longo e carinhoso monólogo. Noutro, era o senhor que ficou segurando, por mais de uma hora, a mão do parente já então distante, afastado pela velhice ali implacável para todos.
É uma lição de vida esta minha vizinhança.
Todos os dias vejo meu provável futuro.
Numa época em que estive muito deprimido, paradoxalmente eram aqueles serezinhos frágeis e com tanto motivo para se deprimirem que me davam alento: se eles vão em frente, eu também hei de.
E fui, e vou, e é por isso que diariamente abro a janela para dar um silencioso e respeitoso bom-dia àquela dezena de pessoas que certamente já fizeram tanto na vida e hoje dependem de cuidados e felizmente têm recursos para isso --antes fosse assim para todos.
Quanto à senhora que parou de respirar, fiquei curioso para saber o que tinha acontecido com ela. Mas não tive coragem de ir lá perguntar.
Eu sei que é isso que me espera um dia, mas nunca estarei preparado para.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
