Luiz Caversan
Homens que matam mulheres
Se tivesse levado a cabo suas intenções e de fato matado a ex-mulher Cristina no ônibus da Baixada Fluminense, André Luiz teria sido apenas mais um número na assombrosa estatística dos homens que matam mulheres que não os querem mais.
Mas, depois de dez horas de ameaças com uma arma, André acabou se rendendo e cada um levará para o resto da vida o gosto, agora ainda mais amargo, de um amor que não deu certo.
Esse gosto é certamente preferível a não sentir nenhum, como é o caso de Roberta Fonseca, 29 anos, grávida e também assassinada pelo ex; de Daniela, 30 anos, morta por Cláudio Marcelo, que se matou em seguida, inconformado com a decisão dela de pôr fim ao namoro. Ou ainda Danielle, 25, executada pelo noivo Alex com dois tiros, porque não quis reatar o caso de amor encerrado havia 15 dias. Alex também pôs fim à própria vida em pleno passeio público.
Por que tal freqüência desse tipo de crime em que a tênue barreira entre o amor e o ódio é drasticamente ultrapassada quase sempre tendo a mulher como a vítima?
Sim, há o recente caso de Carla Cippolina, acusada de ter matado o ex-namorado, coronel Ubiratã, num nebuloso caso envolvendo armas e sentimentos feridos. Se forem verdadeiras as acusações contra ela, terá sido uma exceção a confirmar a regra de que homens matam mulheres, mais e violentamente, quando estas resolvem não os querer mais, quando pretendem dar um rumo à própria vida que não aquele decidido pelo macho da relação; em que elas ousam, no limite de sua individualidade, dizer não e dar-lhes as costas.
Seria temeroso generalizar, porque obviamente cada caso é um caso, e em cada circunstância há um componente determinante, um "tempero" a condicionar o "gosto" da tragédia.
Mas que é da natureza do homem inconformar-se com o não da mulher, isso é verdade inquestionável, seja ela decorrência da cultura da força, do machismo atávico ou da necessidade do exercício do poder fálico.
Uns acabam aceitando a adversidade, outros vingam-se de maneira as mais diversas, outros partem para o espancamento, alguns decidem ir para o tudo ou nada: "Se não ficar comigo não ficará com mais ninguém".
E assim caminha a humanidade, como se o amor que se sente no peito desse o direito à propriedade de quem foi escolhido pelos desígnios do destino.
Pois é, trata-se do ser humano, em sua pequenez, interpretando mais uma vez mediocremente o livre-arbítrio que Deus lhe deu.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

