Luiz Caversan
Como era bom voar...
Não faz muito tempo, menos de duas décadas atrás, viajar de avião era um luxo.
As pessoas se preparavam para o que seria uma aventura, ainda que fosse uma simples ponte aérea Rio-São Paulo.
Valia a pena se preparar mesmo, até a moda era levada em conta na hora de se vestir, porque, afinal, ia-se embarcar nos chiquérrimos, embora antiguinhos, Electras, com seus possantes quadrimotores a hélices, num vôo que duraria uma hora (hoje é metade do tempo), a uma altitude que permitia desfrutar a inigualável beleza do litoral que vai de Santos até o Rio, passando por toda a costa verde Ilha Bela, Paraty, Angra dos Reis, Restinga da Marambaia.
No avião, que tinha janelas enormes e cortininhas de tecido, o serviço era impecável, comida de qualidade, uísque "bom", podia-se fumar a bordo, mas ninguém ligava para isso.
Em alguns exemplares dessas maravilhas voadoras --nunca houve um acidente grave com um Electra-- havia no fundo uma espécie de lounge, no qual as poltronas eram dispostas em semicírculo e os passageiros viajavam em animadas conversas.
Muitas vezes presenciei ali, às gargalhadas, artistas famosos que aproveitavam a última ponte aérea de São Paulo para o Rio no domingo. Tinham terminado o fim de semana teatral na capital paulista e retornavam ao Rio para pegar no batente na TV na segunda. Era uma festa.
As viagens mais longas, então, mereciam mais preparativos e ofereciam emoções ainda maiores. Tenho guardado comigo meu primeiro bilhete aéreo de viagem à Europa, do final dos anos 70. É uma espécie de carteira, por isso que durou tanto tempo.
Lembro-me que um grupo de amigos me levou para o embarque na Ala Internacional do Aeroporto de Congonhas, com direito a choro, adeusinhos e tudo o mais. Qual não foi minha surpresa quando embarquei num avião pequeno com destino a logo ali, no Rio, ao Galeão, então um local ermo e deserto, de onde, aí sim, o gigantesco DC-10 partiria em direção a Lisboa, o primeiro destino.
São apenas lembranças que contrastam com experiências horríveis que tenho tido recentemente, numa sucessão de viagens a trabalho, portanto numa sucessão de dissabores nos aeroportos brasileiros, que se tornaram, em algum caso, algo próximo a uma revolução em curso.
Outro dia, ao desembarcar no Rio depois de horas de atraso, brigas entre passageiros, funcionários estressados e nervosismo generalizado, dei de cara com o busto do Santos Dumont e pensei: "O cara deve estar envergonhado..."
Dizem que as coisas vão melhorar e tudo volta ao normal, mas duvido que os aeroportos brasileiros percam esse ar de rodoviária em véspera de feriado em que se converteram.
Uma pena, principalmente quando se pensa não apenas em Santos Dumont, mas também que o Brasil teve nada menos que 14 companhias aéreas em operação entre 1925 e 1954, que o tráfego aéreo no Brasil na primeira metade do século 20 só era menor que o dos Estados Unidos, que tivemos companhias fantásticas como a Real ou a PanAir, que a Varig foi uma potência mundial e manteve, durante anos seguidos, o melhor serviço de bordo do planeta...
Saudosismos à parte, já foi muito bom viajar de avião neste país.
Hoje é uma tortura.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
