Pensata

Luiz Caversan

16/12/2006

O amigo secreto

Publicidade

Não me lembro se era Vera ou Lúcia. Talvez Vera Lúcia. Mas a imagem dos cabelos louros, sempre arrumadinhos e presos pela tiara, é bem vívida. Assim como o é o uniforme, meias três-quarto, saia pregueada azul marinho e a blusa branca com o brasão da escola no bolso. E eu sempre por perto, imaginando as mil formas que poderia ter aquilo que se escondia por trás do bolso...

Vera, ou Lúcia, era linda. Pelo menos eu achava. Assim como me achava, e na verdade era, feio. E o fato de Vera Lúcia (vamos chamá-la assim...) ser mais velha que a média dos alunos daquela classe do curso ginasial lá no Tatuapé, ter amigos "play-boys", fumar escondido na hora do intervalo, ler revistas "para adulto" sem esconder e ter um ar absolutamente blasé, tornava-a ainda mais inatingível. E ainda mais desejável.

Foi naquele ano daquela escola que ouvi falar pela primeira vez do tal amigo secreto. A turma toda se empolgou quando o Abrão chegou com a novidade, vinda diretamente do escritório do pai dele, advogado do "centro da cidade".

Logo organizou-se o sorteio, toda a sala reunida, fizeram-se os papeizinhos com os números de cada um (sim, naquela época os alunos eram numerados, eu o 26) e cada um pegou o seu.

Minhas pernas ficaram bambas, a vista turvou e quase desabei quando abri o meu e lá estava: era o número dela, da Vera Lúcia.

Passado o choque inicial, vi ali a chance da minha vida de conquistar a loira, triste ilusão, por meio do presente do amigo secreto.

Durante quase duas semanas, fiz de tudo para economizar, enquanto procurava o presente ideal.

O escolhido acabou sendo uma caneta japonesa esmaltada, fundo cor-de-rosa com desenhos azuis, que na época achei o máximo (hoje seria completamente brega...)

Custou "uma nota preta", como se dizia, mas encarei.

Ia ficar praticamente o mês todo sem comer fora e sem ir ao cinema, que eu já amava, mas eu pensava no bolso da Vera Lúcia e achava que valeria a pena.

No último dia de aula deu-se a entrega dos presentes. À medida que cada um era chamado, pela devida ordem numérica, apontava o sorteado e entregava o presentinho --no meu caso seria um presentão, cujo efeito, àquela altura, eu já dava como absolutamente certo.

Qual não foi a surpresa, minha e a de todos, quando, ao dizer que minha amiga era a Vera Lúcia, ouvi ela retrucar, toda alegrinha: "Que coincidência, você também é o meu amigo!"

Melhor impossível!, exultei, tudo se encaixando perfeitamente.

E lá fomos nós trocar os pacotinhos.

No entanto, o anticlímax foi total: Vera Lúcia pegou o pacotinho, me deu um rápido beijo na bochecha e simplesmente se virou e foi embora, saiu da sala, atravessou o pátio e foi encontrar os amigos play-boys, me deixando lá com a maior cara de tacho e uma decepção enorme. Que só não foi maior do que a que senti quando, num canto da sala de aula, abri o "presente" dela.

Era um enorme torrone, aquela barra doce e gosmenta recheada com amendoim, vendida na cantina da escola e que custava um centésimo do preço do presente que dei a ela --e não era o caso, ali, de dizer que o que estava valendo era a intenção...

Com lágrimas nos olhos e o orgulho em frangalhos, comi o maldito doce, deixando para chorar, de verdade, quando cheguei em casa.

Graças a Deus, no ano seguinte a Vera Lúcia mudou de escola e eu nunca mais a vi.

Foi recordando essa história que me dei conta do motivo pelo qual, todo ano, fico tremendamente angustiado quando vai chegando a época do...amigo secreto.

Odeio essa brincadeira.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca