Pensata

Luiz Caversan

06/01/2007

Outro mar

Publicidade

"Depois da travessia, é outro mar. Só alegria."

As palavras do vendedor ambulante que transitava entre as centenas de carros vieram acompanhadas de um sorriso. "Outro mar?", perguntei interessado. "Sim, outro mar!", disse ele profético.

A travessia era a do canal de São Sebastião, que separa o continente do litoral paulista de Ilha Bela, cujo nome faz jus à natureza exuberante e minimamente preservada.

Seriam horas de espera agravada pelo feriado do fim do ano, mas de acordo com o vendedor magrinho valeria a pena por conta do tal "outro mar".

Para mim e minha companheira de viagem, o outro mar soou como que uma redenção.

Chuvas, engarrafamentos, consumismos natalinos, violência urbana, crianças pseudo-acrobatas nos cruzamentos, politicalha em geral e tristezas que não tinham fim ficariam para trás, assim como ano que se esvaía, e tudo o mais seria o outro mar, o bem, o lindo, o futuro.

O verde, a vista do mar ao longe, os gigantescos e exuberantes navios de cruzeiro que este ano circularam ainda mais presentemente pelo litoral, a simpatia do pessoal da ilha, a água cristalina e até mesmo os borrachudos e as queimaduras, do sol que ali deu as caras de vez em quando, foram os indicativos concretos da existência inquestionável do outro mar. O mar do lado de lá, aquele em que a vida é pacata, onde ainda se conversa, ainda se passeia sem ter exatamente aonde ir, ainda se espera algo de bom acontecer, ainda se acredita, ainda se confia, ainda se faz jus à existência honrada.

Olhar para o outro mar era a compensação, a opção real a tudo que continuava, no entanto, a insistir em existir, o mar de cá: gente queimada viva dentro de ônibus, morto e feridos pela sanha das balas perdidas, o poder paralelo atacando de frente o poder real, que teima em andar de lado, o engarrafamento na própria ilha, que recebeu 10 mil (dez mil!) veículos a mais do que deveria, abrigando portanto um engarrafamento monstro que durou dois dias, a chuva que mais uma vez castigou os pobres e desvalidos, levando casas e vidas, os loucos das estradas, que perpetuam sua sina assassina na contra-mão da vida que vem feliz no sentido contrário e se esvai na ignorância transbordante, as cenas do ditador enforcado divulgadas à larga, como que para pateticamente e inutilmente dizer: ditadores, temei!

Este é "o" mar, daí a necessidade de acreditar, buscar ou construir incessantemente o "outro" mar.

O mar das persistências e das fantasias, que seja, mas alguma alternativa para não se afogar passivamente nessas águas turvas e traiçoeiras da existência medíocre.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca