Luiz Caversan
Sem saudades do Brasil
Os pequenos flocos de neve flutuam ao sabor do vento antes de sumirem no grande lençol branco que cobre toda a cidade. O Sol desapareceu para que a neve pudesse de novo dar o ar de sua graça, mas logo ele volta, tornando o branco ainda mais branco.
Enquanto isso, Winnipeg, a friorenta cidade do centro-sul do Canadá, segue seu pacato destino de pólo industrial do grande gigante gelado ao norte da terra de mister George W. Bush. Um vizinho de espírito mais desarmado, sem dúvida.
É a segunda vez que me encontro por aqui, a primeira foi num verão escaldante, agora em pleno inverno, algo em princípio assustador para nós tropicalistas, temperatura variando de 10 a 30 graus, sempre abaixo de zero.
Tudo é branco do lado de fora, tudo é quentinho do lado de dentro, assim funcionam as coisas, o que não impende as pessoas de se locomoverem e levarem uma vida praticamente normal. Não, não se congela apenas de sair na rua, porque todos têm obrigatoriamente que se vestir adequadamente, e se vestem. E se preparam e se organizam, e sabem enfrentar o que há de pior por aqui, que é basicamente esse tempo absolutamente inóspito.
Será que falta um frio glacial para que o Brasil deixe de ser o caos em que chafurda permanentemente, eis uma pergunta recorrente, assim como o foi, para mim, durante anos, a dúvida segundo a qual teriam sido positivas algumas boas guerras para que o povão do grande gigante quente ao sul do equador pudesse de fato dar valor às suas coisas.
Coisas boas que são tantas e tantas, mas que desaparecem, diluem-se aqui a distância. "Brasil, terra do Romário", decreta o motorista de táxi indiano, num inglês pior que o meu. Bem, ele está desatualizado, pobre Romário, mas pelo menos não tem a menor idéia do que acontece no Rio de Janeiro no presente momento, nem nunca ouviu falar de crateras do metrô que engolem vans e advogadas na América do Sul. Menos mau; quer dizer, teria sido menos mau se o tal motorista não tivesse me enganado no trajeto, acrescentando uns bons dólares à corrida...
(O Sol acaba de ressurgir, emprestando um dourado deslumbrante ao branco, que agora brilha como só...).
Mais dois dias e é hora de voltar. Além do prazer de ver a filha se formar numa universidade local, a viagem serviu também para reforçar a admiração por sociedades que se fazem respeitar, como a canadense. Que o fazem porque têm respeito pelas diferenças, claro que na medida do que é permitido num país capitalista. Mas é muito bacana o tratamento dispensado, por exemplo, às crianças, aos idosos e aos portadores de necessidades especiais, que podem ser vistos literalmente em todo canto, porque os lugares encontram-se equipados para recebê-los. Não ficam escondidos dentro de casa para não expor sua dificuldade de viver em cidades desaparelhadas como São Paulo...
É por essas e por outras que os brasileiros que moram por aqui gostam tanto do Canadá.
Tomara que eles não se esqueçam de que há um Brasil inteiro para melhorar.
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
