Luiz Caversan
A Babel bem aqui
Das Planícies geladas e do urbanismo pacato do Canadá para a muvuca do calçadão de Ipanema é um pulinho, no tempo e no espaço cada vez mais globalizado.
Segunda-feira, Winnipeg, -20 graus, terça São Paulo esquisita friorenta de verão 18 graus, quarta 28 graus em Brasília até chegar na sexta Rio, aí sim só menos cinco que os 40 graus de praxe.
Mas a temperatura é apenas um detalhe que se resolve com mais ou menos roupa, com ar quente ou ar frio das maquininhas condicionadoras. O que interessa de verdade, nessa jornada linear por quase metade da terra, é o tráfego estético, político, cultural, econômico, antropológico.
Daquele interior todo certinho do grande gigante gelado ao norte da terra do Bush para a miscelânea brasiliense, passando antes pela megalopolitanice paulistana, já é um choque. Chegar ao Rio de repentemente, então, é o que há em termos de exercício de antropologia empírica. Mesmo porque não é apenas um Rio, mas muitos...
Sexta-feira, final de tarde, o calçadão de Ipanema fervilha de peles morenas, cores de todas as cores, e o som da própria Babel. O que menos se ouve é o carioquês em meio ao burburinho do qual se destaca o alemão, o inglês, o espanhol, o francês, algo como russo, quem sabe um nórdico norueguês, fora os muitos tons mineiros, paulistas, gaúchos, catarinas e quetais, sem esquecer aquele coreano magrinnho perdido no meio da confusão, sendo chamado de japonês --nunca se refira a um coreano como japonês ou vice versa, porque estará ofendendo a ambos...
Babel.
Viu o filme?
É de doer, muito mais que as olheiras falsas e o histerismo convincente do Brad Pitt, uma parábola dos extremos da globalização irreversível, que está agora mesmo em Tóquio, no Marrocos, na fronteira EUA-México, em Davos e também na lindíssima piscina do Copacabana Palace, aquele em que Ladi Di deu elegantes braçadas quando veio compartilhar conosco sua classe e charme anos atrás, nestes dias de calor tomada pelos turistas abonados. Que aliás não estão nem aí com as notícias da vizinha guerra urbana e suas linhas vermelhas e amarelas...
Aparentemente eles são bem informados o suficiente para saber que, em maior ou menor escala, a violência está em todo canto, e se divertem como podem.
Minha amiga que mora no Rio há 30 anos nunca sofreu um assalto aqui (bate três vezes na madeira), mas foi roubada duas vezes em Londres em menos de 24 horas, uma na Oxford, outra na Fleet Street, justamente a rua dos jornais que tanto destaque dão para as nossas vicissitudes...
Nas duas vezes em que esteve na delegacia, disputou espaço com dezenas de outras vítimas --documentos, dinheiro, lap-tops, jóias...
Mas porque será que somos sempre nós os mais famosos?
Questão de estilo, talvez.
Ou será nossa velha vocação de estar sempre na página errada do noticiário?
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
